hoje o propósito é o Natal e não nenhuma coisa brutal que tenhas dito.
No teu primeiro Natal, em 2005, escrevi-te uma carta... a pensar que a ideia do blog tinha originalidade e afinal...
Foi um texto publicado no suplemento de Natal do jornal Correio do Vouga. Tem data de 21 de Dezembro de 2005. Tinhas oito meses... nem eras interessante ainda!!! :)
Estava numa fase de força, de bastante trabalho... mesmo. Era uma altura nada parecida com esta, mais descontraída e divertida de sensação de dever cumprido agora vamos a outras prioridades mais pessoais... ;)
Era uma altura em que tinha visto coisas um bocado duras. Tinha ido a Angola pela primeira vez no ano anterior. Tinha estado na Amazónia meses atrás... quando tinhas tu dois meses. Ganhava nessa altura alguma consciência política global. Começava a verificar e a perceber certos mecanismos de injustiça social no mundo. Andava também a tentar convencer quem tinha de ser convencido para, eu e mais uns quantos criarmos uma ONG que pudesse lutar contra essas coisas e confesso que na altura não percebia patavina disso de ong's e estatutos e certidões e bla bla bla....
Lutar, não é bem literal. Não é para andares para aí a lutar! Contra também não, porque acabámos por ser a favor de muita coisa e essa é a tónica... uma mistura de pirataria pacífica que como não faz parte do core das coisas, inventa caminhos por onde possa prosseguir a cumprir aquilo que tem de ser cumprido.
Vivia também uma fase muito bonita da vida pessoal. Muito intensa de distância, de saudades, de tudo..! Mas sobre isto, anda-me perguntar que eu conto-te....!
Acho que este texto naquilo que ele tem de mais negro explica-se por aí... pela consciência global que andava a ganhar, como se todos os dias o mundo me esfregasse os olhos para ver o que não se via ao olhar desatento. Tive sorte nisso, poder ter visto e testemunhado muita coisa... muitos milagres em teatros de vida miseráveis.
Ao mesmo tempo que vivia o milagre do amor na própria vida, com a primeira sobrinha de meses, com a família, com a potencial futura família... grandes tempos aqueles em que tu chegaste...
Tenho de recortar o artigo e colocá-lo numa moldura para to dar e pendurares em qualquer lado.
Fica-te com o texto e Feliz Natal miúda...
"Querida Maria,
escrevo-te hoje, mesmo que não entendas ainda nada disto, pois só chegaste há
dias, há oito meses! Este vai ser o teu primeiro Natal connosco, e sei que no
olhar atento que dás a tudo o que te é novo, que é tudo, lanças a pergunta do
que é que será e o que significa o mundo.
Há coisas Maria, que
não se compreendem. Ando cá há alguns anos e muito do que vejo ainda não
compreendo, mas sabes, o tempo que aí vem ensina-me que não temos de
compreender tudo, às vezes temos só é de acreditar.
Vais ver neste lugar
chamado mundo pessoas a discutir, pessoas a passar por cima de outras pessoas
para ganharem mais dinheiro, ou se iludirem pensando que têm poder, apesar de
não terem poder nenhum. Vais ver pessoas que abusam de outras, com autoridade
assumida mas não dada, para se convencerem a si próprias de que são
importantes, mas são é impotentes. Vais ver pessoas que arranjam desculpas para
fazer guerras porque querem a paz, mas no fundo o que querem é petróleo ou
coisas assim parecidas para poderem passear de carro e ter muitos brinquedos lá
em casa. Vais ver pessoas que se matam, e consigo matam mais pessoas que não
sabiam que iam morrer, só que apanharam o mesmo avião ou o mesmo comboio que os
que levavam aquelas coisas que explodiam e fazem barulho, magoando muita gente.
Sabes, não
compreendemos, mas essa gente diz que faz isso em nome de Deus. Usam Deus para
justificar conforto financeiro. E depois, nós que estamos de fora começamos a
julgar e a torcer por uns ou por outros como se de futebol se tratasse, Benfica
ou Porto, Cristãos, Judeus ou Muçulmanos.
De facto há coisas que
sei que nesses olhos grandes, tu procuras compreender. Ainda nem caminhas, nem
coordenas bem os movimentos da tua cabeça, mas sei que já procuras… há coisas
que não compreendes, nem eu, nem ninguém.
Mas há uma coisa que é
mesmo inacreditável e incompreensível se pensares só com a nossa natureza
humana. Sei que com oito mesinhos apenas, ainda tens muito de Deus em ti, pois
saíste de perto Dele há pouquinho tempo, mas há uma coisa que não se compreende
só com os olhos, pequena Maria, e que se sobrepõe a todas as perguntas e
dúvidas que te contei acima.
É uma coisa impressionante! Um menino, pequeno e
frágil como tu, um dia nasceu de uma rapariga com o mesmo nome que tu. Não
nasceu numa maternidade, nasceu num curral. Dizem que ele nem chorou quando
nasceu, mas eu julgo que chorou.
Julgo que sim, que também fez birras como tu, que chorava quando queria colo como tu, que sorria quando lhe faziam a
vontadinha e iam passear com ele, que tinha os olhos tão abertos como tu
tens os teus, a ver se percebia o mundo que ele ia mudar. Acho que acordava de
noite como tu, acho que preferia fruta doce à sopa como tu, e acho que também
levantava a cabeça como tu fazes a procura não sei de quê, mas tu deves saber
o que seria.
O incrível é que ele,
tão pequenino e frágil, tão pobre e pequeno, tinha tudo para ser poderoso, mas
não quis assim. Escolheu nascer assim como tu. A única arma que ele utilizou
foi o Amor, que espalhava à volta Dele, que contagiava com o sorriso dele,
desde pequeno até ser crescido. Ele quando abria a boca para falar, irradiava
Amor, irradiava esperança, irradiava calor, tal como tu quando começas a palrar.
Era um menino pequeno e fez isso tudo. Um dia, uns senhores fizeram-lhe mal,
mas ele mesmo assim, ressuscitou e venceu o nosso maior medo – o fim de tudo.
Isto é que é
mesmo incompreensível! Um miúdo como tu, pequeno e frágil, humilde e pobre...
Venceu e libertou-nos dos nossos limites humanos! Ele que começou tão lá em
baixo, num berço de palha e chegou até lá tão em cima, até ao lugar de onde tu
desceste há dias e vieste ter connosco, para partilhares esta aventura chamada
vida!
Sê bem-vinda à Terra
Maria. Aproveita a viagem e feliz primeiro Natal!
(Correio do Vouga,
Dezembro de 2005 – edição especial de Natal)