sábado, 21 de abril de 2018

Adora e confia



Não te preocupes com as dificuldades da vida,
com os seus altos e baixos, as suas desilusões,
pelo futuro mais ou menos sombrio.
Quer o que Deus quer.
Oferecer no meio das preocupações e dificuldades
o sacrifício da tua alma simples, que apesar de tudo
aceita os desígnios da Sua providência.
Pouco importa se te consideras um frustrado
se Deus te considera plenamente realizado, ao Seu gosto.
Perde-te, confiando cegamente, nesse Deus  que te quer exactamente assim.
E que virá a ti, mesmo que O não vejas.
Pensa que estás nas Suas mãos, tanto mais fortemente agarrado 

quanto mais apático e triste estiveres.
Vive feliz. Imploro-te. Vive em paz.
Que nada te possa perturbar.
Que nada te consiga tirar a tua paz.
Nem a fadiga mental. Nem as falhas morais.
Faz com que brote, e mantém-no sempre no teu rosto, um sorriso doce, reflexo daquele que o Senhor 

te dirige continuamente.
E no fundo da tua alma coloca, em primeiro lugar,
como fonte de energia e critério de verdade,
tudo aquilo que te enche da paz de Deus.
Lembra-te: tudo aquilo que te deprima e inquiete é falso.
Isto te asseguro em nome das leis da vida e das promessas de Deus.
Portanto, quando te sintas desolado, triste, adora e confia.


Teilhard de Chardin

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Carta de Lincoln ao professor do seu filho





“Caro professor, ele terá de aprender que nem todos os homens são justos, nem todos são verdadeiros, mas por favor diga-lhe que, para cada vilão há um herói, que para cada egoísta, há também um líder dedicado, ensine-lhe por favor que para cada inimigo haverá também um amigo, ensine-lhe que mais vale uma moeda ganha que uma moeda encontrada, ensine-o a perder, mas também a saber gozar da vitória, afaste-o da inveja e dê-lhe a conhecer a alegria profunda do sorriso silencioso, faça-o maravilhar-se com os livros, mas deixe-o também perder-se com os pássaros no céu, as flores no campo, os montes e os vales.


Nas brincadeiras com os amigos, explique-lhe que a derrota honrosa vale mais que a vitória vergonhosa, ensine-o a acreditar em si, mesmo se sozinho contra todos.

Ensine-o a ser gentilu com os gentis e duro com os duros, ensine-o a nunca entrar no comboio simplesmente porque os outros também entraram. Ensine-o a valorizar a família que sempre o apoiará em qualquer situação.
Ensine-o a ouvir todos, mas, na hora da verdade, a decidir sozinho, ensine-o a rir quando estiver triste e explique-lhe que por vezes os homens também choram.



Ensine-o a ignorar as multidões que reclamam sangue e a lutar só contra todos, se ele achar que tem razão.
Trate-o bem, mas não o mime, pois só o teste do fogo faz o verdadeiro aço, deixe-o ter a coragem de ser impaciente e a paciência de ser corajoso.
Transmita-lhe uma fé sublime no Criador e fé também em si, pois só assim poderá ter fé nos homens.

Eu sei que estou a pedir muito, mas veja o que pode fazer, caro professor.”

Abraham Lincoln



[carta atribuída]

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Sobre como gerir a vida nos momentos difíceis - [A Paixão, segundo JC]



Longe vão os dias de festa das bodas de caná, ou os dias serena alegria, de peixe assado na praia ao redor do fogacho com os amigos. Distantes desta noite escura de dureza, vão os dias de conversas longas à beira das noites frescas do lago tiberíades, ou as conversas curtas à beira do poço de samaria, de alegre supresa e charada - “se soubesses quem eu sou Mulher, eras tu que me pedias água” –. Nesta noite, começa um caminho que é feito e coroado com espinhos, longe vai a alegre surpresa de fazer milagres com aquilo que temos onde pessoas que se juntam por uma causa, conseguem fazer que sobrem cestos de pão e peixe depois de 5000 homens, mais mulheres, mais crianças terem comido.

Longe, nesta hora de silêncio – vai um Jesus jovem no rosto, com a certeza de que vai mudar o mundo porque veio dizer que benaventurados são os pobres, não os outros, benaventurados são os que lutam pela justiça, não os outros.
Longe vai o dia em que se aproxima de um palerma que se foi meter em cima de uma árvore para O ver e lhe diz - "Desce daí Zaqueu – quero jantar e ficar em tua casa hoje homem”.
Atrevida esta alegria simples de quem se faz convidado, de quem não se preocupa com onde vai dormir ou o que vai comer ou com quem vai comer – há-de aparecer alguma coisa, e há-de ser em festa. Liberdade isto. Liberdade mesmo.


Que paradoxo e que incoerência difícil de engolir. Tudo começa numa festa, a mais bonita, a do casamento, a celebração de Amor que gera vida.

Tudo desemboca aqui, na morte, no caminho de cruz às costas, numa traição com um beijo, porque desilusão da luta, tudo tem foz no frio e no abandono de quase todos os amigos das horas boas. Que treta. Passar por tanto para isto, para a cruz.


É a vida nos momentos difíceis, longe dos dias de sentido, perto do aparente sem sentido, miúdos. É aqui que vale a fé que infelizmente não vos é explicada em lado nenhum.
Num caminho onde Jesus cai, o tal das assadas à beira do mar. Três vezes. Cai uma, cai duas, cai três vezes, três lentas vezes toca o chão com um beijo encharcado de suor e lágrimas contidas.
Quantas vezes desanimamos quando caímos a primeira. Jesus é condenado, inocente, nem se defende. Para quê dizer alguma coisa? Quantas vezes nos queixamos ao mínimo que nos parece injusto ou mal atribuído?
Jesus segue, imagino-o num silêncio atordoado nesta noite, a pensar no que raio está ali a fazer e como caraças foi ali parar... por outro lado, a sentir tudo e a recordar-se de criança de joelhos esfolados da brincadeira, onde também sentida tudo, com a mãe a ralhar-lhe aflita para que tenha cuidado que as brincadeiras podem dar mau resultado.

Desta vez é Ele que consola a mesma mãe, aflita.
A serenidade que é preciso e a lucidez para nos momentos difíceis sobrevoarmos e sabermos o sentido maior. Jesus é feliz, até aqui, no meio deste caminho a que chamais de via sacra. Consola durante a sua travessia as mulheres de Jerusalém, deixa-se secar e limpar pelo lenço de Verónica, deixa-se ajudar, como o fazia pelo caminhos da Galileia, junto aos poços do deserto, junto ao lago das pescarias – lança para esse lado Pedro. Jesus deixa-se ajudar. A dor no Amor revelada por José, um amigo de Arimateia, talvez algum dos que Ele cativou de sorriso no rosto e palavras leves de ressurreição que lhe carrega a cruz no meio da confusão de gente e de factos que incriminam um criminoso, que o era, como hoje, desalinhado do Poder.

Cristo lava os pés aos discípulos - Rembrandt


Despojado de tudo, até da roupa que trazia, fica a ser menos que um refugiado, o Deus feito homem, submete-se a tudo. Morre na extrema dor, a mais baixa -  a cruz dos cabrões. Nasceu numa manjedoura de pobre, morre numa cruz de crime.

Hoje perguntaste-me o que era a via sacra, Gabriel. Respondi-te que era o dia em que lixaram o Cristo bem lixado. Mais tarde hás-de perceber o que é a via sacra. Não é caminho de dores - é caminho de heróis - como tu, de gente que acredita que há uma coisa chamada Amor, que por uma vez que vale por todas, venceu o Poder.

Foi a vez do mestre, que se juntava com os amigos na praia a assar peixe fresco na areia e a comer à volta da fogueira, depois talvez de uma bela surfada ou pescaria. O mestre que dizia o que tinha de dizer e vivia por isso e por isso o calaram, mas por isso ele reviveu, sem provas que sim ou que não. Não te sei explicar a Fé de outra maneira que um espinho a rasgar-nos a pele porque acreditamos naquilo em que acreditamos.

Só assim percebo porque é que o Mestre percorreu todo o caminho, todos os momentos difíceis, os possíveis e os impossíveis de imaginar, tudo para nos dizer que é assim que se faz, que é assim que se vive, porque mesmo na morte, estaremos vivos. Estamos cá para isso, para lutar pela justiça do Amor e fazê-lo com certeza definitiva, até ao fim, mesmo que nos custe a vida. E é nesse espírito, de que longe vão os dias de dor já.. Desde aí.
As bodas de Caná são para sempre.







terça-feira, 4 de março de 2014

Sobre ser filho de futuro catedrático e isso dar trabalho..

Campus da Ciência, na Vagos FM... por Victor Neto,

... Maria M. Neto (8) e Gabriel M. Neto (4).


Imagino a quantidade de vezes que esta rúbrica deve ter sido gravada até ficar em condições...!




sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Good Advice...

putos,
ultimamente há aí uns sintomas de pré-adolescência (segundo especialista) em alguns alunos, e não só, que me têm preocupado um pouco. 
De qualquer maneira, para a dona dos tratados, já não falta muito para isso. Fica um texto com alguns conselhos para esses tempos difíceis, porque são de crescimento.

A fonte estava em inglês e não me dei ao trabalho de traduzir.... portanto é bom que saibam inglês e não por causa deste texto que espero que saibam.

O inglês é importante porque além de tudo o resto, como é que esperam ver filmes? A lerem legendas?.... pffff... ou é para ler ou é para ver..!...

Também pode dar-se o caso de se tornarem génios e terem de emigrar, para depois o governo de cá dar vistos dourados a génios estrangeiros para virem para cá, porque a vocês vos mandou emigrar...

Para já.. ficam os conselhos para o tempo antes disso tudo.



  1. Live simply.  Love generously.  Speak truthfully.  Breathe deeply.  Do your best.  Leave everything else to the powers above you.
  2. No matter how you live, someone will be disappointed.  So just live your truth and be sure YOU aren’t the one who is disappointed in the end.
  3. Love yourself!  Forgive yourself!  Accept yourself!  You are YOU and that’s the beginning and the end - no apologies, no regrets.
  4. You are GOOD enough, SMART enough, FINE enough, and STRONG enough.  You don’t need other people to validate you; you’re already valuable.
  5. One of the most freeing things we learn in life is that we don’t have to like everyone, everyone doesn’t have to like us, and it’s perfectly OK.
  6. Try not to take things other people say about you too personally.  What they think and say is a reflection of them, not you.
  7. If you care too much about what other people think, in a way, you will always be their prisoner.
  8. Sometimes we expect more from others because we’d be willing to do that much for them.  Keep loving.  You’ll learn who’s worth it in the end.
  9. Not everyone will appreciate what you do for them.  You have to figure out who’s worth your attention and who’s just taking advantage of you.
  10. Saying yes to happiness means learning to say no to the people and things that hurt you.  Be wise enough to walk away from the negativity.
  11. What you allow is what will continue.  It’s better to be lonely than allow negative people and their opinions derail you from your destiny.
  12. If you feel like your ship is sinking, it might be a good time to throw out the stuff that’s been weighing it down.  Let go of people who bring you down, and surround yourself with those who bring out the best in you.
  13. Just because someone has been in your life for many years (tipo, duas semanas), doesn’t mean there shouldn’t be a point at which you finally decide to let go.
  14. One of the most difficult tasks in life is removing someone from your heart.
  15. Sometimes we don’t forgive people because they deserve it.  We forgive them because they need it, because we need it, and because we cannot let go and move forward without it.
  16. The first to apologize is the bravest.  The first to forgive is the strongest.  The first to move forward is the happiest.
  17. Don’t cry over the past, it’s gone.  Don’t stress about the future, it hasn’t arrived.  Do your best to live in the NOW and make it beautiful. 
  18. Be wise enough to let go when you should and strong enough to hold on when you must.
  19. Don’t let dumb little things break your happiness.  True wealth is the ability to experience and appreciate each moment for what it’s worth.
  20. Life is too short to spend at war with yourself.  Practice acceptance and forgiveness.  Letting go of yesterday’s troubles is your first step towards happiness today.
  21. Worry gives small things a big shadow.  In the end, you can either focus on what’s tearing you apart, or what’s holding you together.
  22. Old worries are down payments on problems you may never have.
  23. Smile, even when it feels like things are falling apart.  Smiling doesn’t always mean you’re happy; sometimes it simply means you’re strong.
  24. There comes a time when you have to stop thinking about your mistakes and move on.  No regrets in life – just lessons that show you the way.
  25. Remember the good times, be strong during tough times, love always, laugh often, live honestly, and be thankful for each new day.
  26. You can’t let one bad moment spoil a bunch of good ones.  Don’t let the silly little dramas of each day get you down.
  27. If you are diligent and patient, everything you truly need in your life will come to you at the right time.
  28. Everything will fall into place eventually.  Until then, learn what you can, laugh often, live for the moments, and know it’s all worthwhile.
  29. You’re not the same person you were a year ago, a month ago, or a week ago.  You’re always growing.  Experiences don’t stop.  That’s life.
  30. One of the most rewarding moments in life is when you finally find the courage to let go of what you can’t change.
  31. Never force anything.  Give it your best shot, and then let it be.  If it’s meant to be, it will be.  Don’t hold yourself down with things you can’t control.
  32. When you stop expecting people and situations to be perfect, you can start to appreciate them for who and what they are.
  33. Giving up and moving on are two very different things.
  34. Moving on doesn’t mean forgetting, it means you choose happiness over hurt.
  35. Giving up doesn’t always mean you’re weak; sometimes it simply means you are strong enough and smart enough to let go and grow.
  36. As we grow older and wiser, we begin to realize what we need and what we need to leave behind.  Sometimes walking away is a step forward.
  37. You will never achieve what you are capable of if you’re too attached to things, things, things.
  38. Sometimes there are things in our lives that aren’t meant to stay.  Sometimes the changes we don’t want are the changes we need to grow.
  39. Growth and change may be painful sometimes, but nothing in life is as painful as staying stuck where you don’t belong.
  40. The hardest part about growing is letting go of what you were used to, and moving on with something you’re not.
  41. Accept what is, let go of what was and have faith in what could be.
  42. Don’t be afraid of change.  Change happens for a reason.  Roll with it.  It won’t be easy, but it will be worth it.
  43. It’s usually quite hard to let go and move on, but once you do, you’ll feel free and realize it was the best decision you’ve ever made.
  44. Never let your fear decide your future.
  45. Fear doesn’t exist anywhere except in your mind.  It’s difficult to follow your heart, but it’s a tragedy to let the lies of fear stop you. 
... Live simply.  Love generously.  Speak truthfully.  Breathe deeply.  Do your best.  Leave everything else to the powers above you.




fonte do texto AQUI: marcandangel.com




Para terminar, um hino à família, à amizade, ao amor, ao não-ser-preciso-fecharmo-nos-nas-interrogações, ao não atravessarem o deserto sozinhos... a música tem outro sentido, mas vá.
Eu tenho tempo, tu tens o chão... por isso que nunca caiam as pontes entre nós para tudo o que precisares. Eu já aí estive.


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Sobre carros [.. ou o valor das coisas].



A vida tem alguns medidores, acontecimentos que se vão ligando a nós e marcam aquele intervalo de anos, aquela fase da vida, o tempo em que estacamos não sei onde ou tínhamos o carro não sei quantos. São muitas as referências que as pessoas usam, e são úteis, dão lógica à nossa história, encadeiam-na e enriquecem-na, fazem com que tudo se ligue, interligue, fie e desfie.

Julgo que para quase toda a gente adulta, os carros que se têm marcam. Porque são testemunhos da viagem que se fez não sei onde, porque são o primeiro objecto com que olhamos para o mundo lá fora, cinema-skope dezasseis por nove, a muito mais que três dimensões.

De vez em quando ouvimos o vosso avô e meu pai a falar do VW carocha, o bolinhas, o primeiro carro que teve na América, depois ouvimos-lo a falar dos troques.. os trucks que tinha para o trabalho dele. 

Uma Ford verde, pick-up... que teve muitos anos e que foi onde eu andava quando era pequeno e sem cinto, porque a pick-up não tinha cintos nessa altura. Imaginem a liberdade desses tempos!

Depois teve uma Pick-Up Chevrolet, branca, mas essa já não a conheci. Foi a última antes de ele voltar para Portugal, já estava cá eu e o vosso pai a viver em casa dos vossos bisavós, na escola.

 A vossa avó e minha mãe e do vosso pai, teve um honda civic, azul. Esse é o primeiro carro que me lembro. Julgo que terá sido o primeiro onde andei.

O Amarelinho, 'where the streets have no name'

Também eu já tenho os meus carismáticos. O primeiro foi Land Rover Discovery, série limitada, que meio mundo conhecia por "Amarelinho", porque era.. amarelo camel trophy. Comprei-o na mesma altura em que resolvi deixar um emprego seguro como arqueólogo numa empresa de consultoria em Lisboa. Passava demasiado tempo frente a um computador e antes e depois deste, demasiado tempo no trânsito. Resolvi que a vida não ia ser aquilo e fiz-me à estrada. Tudo mudou ali. Era um jipe lindo, majestoso, caricato e carismático, era mais conhecido que eu e na escola, assim que eu lá chegava tinha alunos à minha espera só porque viam que o carro do prof estava a chegar. Fui a Marrocos com ele, numa campanha onde esses alunos deram muito de si. Vivi, vivemos aventuras mil, cheguei a sítios com ele onde com ninguém mais chegaria.
Tinha faróis lá em cima e umas escadas atrás por onde podíamos subir para o tejadilho e a vista era sempre fantástica dali!


Aprendi nele a conduzir fora de estrada e ensinei também nele algumas pessoas a conduzir, a ultrapassarem-se. Lembro-me de um passeio todo terreno à Figueira, o tal a Marrocos com ajuda humanitária, onde nas portas iam uns autocolantes de uma ONG que nasceria um ano depois, a ORBIS, com um logo feito de balões, pelo pai da Sara, um capitão dos sete mares.

Bonita metáfora da vida. Fomos juntos a sítios onde ele sem mim não chegaria, onde eu sem ele não chegaria. Dois seres que juntos, se superam e vão mais longe.
Havia Amor entre aquele carro, eu e os que eu amava. Porque se construíram histórias para contar que falam disso, de Amor.


A Maria lembra-se do Amarelinho. Dá-lhe um certo estatuto em relação ao Gabriel mais novo.
É estúpido, eu sei, o puto não tem culpa de não ter nascido antes. Mas há uma certa cumplicidade quando o jipe vem à conversa. A Maria lembra-se dele. O puto não.


Depois do jipe, veio não o todo terreno que vai onde é preciso sem limite, mas o que vai rápido, seguro, fiável, o que cumpre o impossível e me faz estar numa reunião em Lisboa de manhã, e à tarde a dar uma aula em Aveiro.

Foram os anos da Volvo V50. Quando o Gabriel nasceu, fui nesse carro vê-lo a primeira vez, e foi nesse carro que me sentei a seguir e que, como tantos quilómetros em solidão tranquila de oração e contemplação da vida pensei que era tio de um ser humano.

Neste carro foram muitos os quilómetros em pouco tempo, muitas viagens tranquilas para aqui e para ali. Por vezes de rádio desligado, ou de banda sonora bem escolhida que pensei muito em muitas coisas, que tive ideias, muitas para muito de que fui fazendo e implementando nas frentes da minha vida.

Nunca me deixou mal este carro. Era azul escuro, cáspio, lindo como o mar. Aproximou-me dos meus amigos a que a vida levou para mais longe. Quantas vezes fui até ao Porto jantar com o meu 'irmão' Paulo, que foi para lá viver e trabalhar? Sem fazer contas porque o carro consumia pouco e as portagens não existiam? Quantas vezes fui lá, só porque ele precisava de conversar ou de um ryan's amigo. (perguntem-lhe o significado de ryan's).

O Jozias ao lado de um clássico desconhecido, em Castro Laboreiro, na serra do Gerês.

Outra memória do volvo são as surf-trips. a mala enorme, e o espaço grande para as pranchas que encaixavam na perfeição entre os bancos. Uma ida a França de perna partida, conduzido, minimamente tranquilo e confortável para cumprir um dever para com gente amada. Cumprir promessas.

Um carro é um objecto, claro. Mas ganha vida, como as botas com que fomos a África, à Amazónia,  com que fizémos a escavação arqueológica do sítio inóspito no ano xpto. A vida marca-se por etapas, por pessoas, sempre as pessoas, e pelos objectos-lugares por onde elas se movem, juntam, pelo que se tornam juntas, mais do que estarem juntas... o que são e pelo que são... juntas.

O Jozias, assim chamado pela matrícula, foi discreto. Poucos o conheceram e poucos andaram nele. Além da família, um nobel da Paz ando nele, por meio de serras para Aveiro e de Aveiro até ao Porto. Ouvi histórias neles absolutamente espantosas, enquanto conduzia tranquilo e seguro a ouvir esse senhor, nobel da Paz, histórias contadas na primeira pessoa, que jamais foram escritas, com pormenores deliciosos, outros assustadores de como se deu a independência de um país em 2001, de como a Santa Sé na altura lidou com a Igreja local desse país, com a política internacional à mistura e com a coragem dos mais pequenos e mais frágeis que se tornam fortíssimos quando o assunto é proteger os seus...

Este carro é o discreto servidor que me acompanhou corrida fora, milhares de quilómetros, com segurança e eficácia. Lisboa, Aveiro, Porto... palestras e conferências aqui e ali... montou e ajudou a fazer crescer uma ONG este carro silencioso.

Lembro-me dos passeios convosco lá atrás, divertidos sempre que saíam comigo. As vossas cantorias idiotas e infantis gravadas nos telemóveis, o vosso entusiasmo em andar comigo, promessa de diversão fosse lá para onde fosse.

O Jozias sempre em silêncio a testemunhar e a permitir tudo isto.


E foi em silêncio que terminou os seus dias de estrada, a dar a "vida" pelos seus. Paradigma de segurança, deu-se, estragou-se, entregou-se e o habitáculo onde eu conduzia nem um cisco. Eu, nem um ferimento.. só o susto do airbag, o estrondo dos embates. A segurança. A gratidão por estar aqui, por continuar aqui.

Há melhor metáfora deste objecto-carro-lugar-lugares para a vida humana? Dar-mo-nos por inteiro aos nossos? Até a "vida" para os defender?...


Julgo que não, julgo que o melhor 'resumo de uma vida feita do sentimento maravilhado de existir, porque os homens, mesmo os velhos, não deixam de ser crianças no espanto que guardam pela vida', palavras de Lobo Antunes, guardam essa síntese da maravilha de um encontro breve, mas intenso, de que Deus nos guarda através de muitas coincidências e ainda mais, por pormenores.

Uma vida assim, intensa, pelas pessoas, sempre pelas pessoas, é de se viver, dando-a pelo e para os outros.
Vivam-na miúdos, com essa sensação de cumprir o que é urgente, ou emergente, e a causa das pessoas, é sempre a prioridade, seja lá onde fôr, seja lá com que meios fôr. E os vossos meios, são vossos, para vosso serviço aos outros, às pessoas.

As pessoas, sempre as pessoas.

O que virá a seguir?
Vamos ver, com olhos sempre maravilhados.






.referência do texto: [Nuno Lobo Antunes: "Em nome do Pai", pp. 94]


terça-feira, 24 de setembro de 2013

Sobre lerem os clássicos enquanto enquanto são putos. Cultivem a cabeça.




Al-Mithra disse-lhe então: Fala-nos do amor.
E ele virou a cabeça e fitou o povo
e sobre todos se abateu um grande silêncio. 
E, com voz grave, disse...
Quando o amor vos chamar, segui-o, 
mesmo que os seus caminhos sejam íngremes e penosos.
E quando as suas asas vos envolverem, 
entregai-vos a ele, 
ainda que a espada dissimulada nas suas penas vos possa ferir.
E quando ele vos falar, 
crede nele, embora a sua voz possa estilhaçar os vossos sonhos 
como o vento do norte devasta o jardim.
Pois assim como o amor vos coroa, também vos crucifica. 
E, tal como serve para o vosso crescimento, 
também serve para a vossa decadência.
E como ele se ergue até às vossas copas 
e acaricia os vossos mais tenros ramos que esvoaçam ao sol, 
também às vossas raízes ele desce 
e as sacudirá no seu apego à terra.
Quais feixes de trigo, ele vos reúne em si.
Vos amassa para vos pôr a nu.
Vos ciranda para vos libertar do vosso farelo.
Vos mói até à alvura.
Vos amassa até vos tornardes macios.
E, depois, vos entrega ao seu fogo sagrado, 
para vos tornardes pão sagrado 
para o festim sagrado de Deus.
O amor fará todas essas coisas de vós, 
para que possais conhecer os segredos do vosso coração 
e vos tornardes, 
através desse mesmo conhecimento, 
um fragmento do coração da vida.
Mas se, no vosso temor, 
procurardes no amor apenas paz e prazer, 
faríeis melhor se ocultásseis a vossa nudez 
e saísseis do amor, para o mundo sem razão, 
onde rireis, mas não com todo o vosso riso, 
e chorareis, mas não com todas as vossas lágrimas.
O amor dá-se apenas a si mesmo 
e nada recebe se não de si próprio.
O amor não possui nem quer ser possuído.
Porque o amor se basta do amor.
Quando amardes, 
não deveis dizer que está no meu coração, 
mas antes, no coração de Deus.
E não penseis que sois vós quem orienta o rumo do amor, 
pois, se vos achar dignos, 
será o amor que conduzirá o vosso caminho.
O amor não tem outro desejo que não realizar-se a si mesmo. 
Mas se amardes e sentirdes desejos, 
que sejam estes os vossos desejos: 
Dissolver-se e ser-se como um regato 
que desliza e canta à noite a sua melodia.
De tanta ternura conhecer a dor, 
ser ferido pela vossa própria concepção do amor 
e sangrar de boa vontade e com júbilo.
Acordar para o amor com um coração alado 
e dar graças por um outro dia de amor;
e fazer uma pausa à hora do meio dia 
e meditar sobre o êxtase do amor; 
regressar à noite ao lar com gratidão; 
e adormecer com uma oração no coração pelo amado, 
e nos lábios um hino de louvor.


Kahlil Gibran, em "O Profeta" 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

sobre generosidade... e tornarem-se visionários por isso


"Limpar o rabo a alguém é a maior prova de Amor que pode haver. Lembra-te dessa merda quando eu tiver 90 anos."




Hoje vi-vos a competir um bocado um com o outro, aquelas birras estúpidas que os irmãos fazem, normalmente quando pequenos como vocês e depois quando são grandes, nas cenas das partilhas e blá blá blá.
Estavam a reclamar um com o outro sobre quem ia fechar o black-out da casa da praia, aquela de sonho brutal que é o paraíso tornado realidade: praia e montanhas de oportunidades para fazer coisas proibidas como comer na sala (até porque a sala e a cozinha da casa são a mesma coisa em teoria), sujar o chão, jogar futebol em casa... coisas típicas da minha missão de vos estragar, porque para vos educar já têm muita gente.

Na vida meus caros, temos de ter visão ao largo e há discussões que são uma perfeita perda de tempo. A maior parte delas são mesmo por deficiente comunicação, por medo de Amar ou por visão pequena e fechada, pelo facto de, por instinto de protecção e de sobrevivência, a espécie humana, como muitas, olhar muito para o seu umbigo, e ter cuidado com ele por medo de... nem sei bem. Tem alguma coisa de egoísmo, mas não é bem, porque tem alguma coisa também de medo, por oposição ao narcisismo do egoísmo.

Por esta altura, há um padre comboniano, são missionários, na paróquia da nossa aldeia de origem. Missionários são uns tipos simpáticos que andam pelo mundo todo a fazer aquilo em que acreditam, sobretudo a viver aquilo em que acreditam. São tipo padres e freiras mas que curtem bués viajar. E também há deles que não são padres nem freiras e nem viajam.

O Pe Aparício, o comboniano, nota-se que tem origens muito humildes e é um poço de sabedoria. A sabedoria não se mede pelas origens, nem pela inteligência. É impossível aliás de se medir. Todas as pessoas são sábias. A vida ensinou-lhes o que tinha de ensinar e pronto, portanto tratem todas as pessoas como sábias. Com efeito, das pessoas mais sábias que já conheci na vida, não sabiam ler ou escrever.

Continuando, o Pe Aparício, é ainda um poço de alegria, gosta de festa. Imagino Jesus, o herói dele, como um tipo assim.. sempre em pescarias, jantaradas, festas, convívios, casamentos. O Homem ressuscitou e das primeiras coisas que fez foi acender brasas na praia e assar peixe para os amigos. Mal acabou de mudar o mundo para sempre... e põe-se a assar peixe na praia para os amigos. Brutal.

Continuando.. o Pe Aparício contou há dias que quando era pequeno, ia arar a terra para ajudar os pais agricultores. E a grande preocupação dele, quase obstinada, era fazer o risco na terra direito. Olhava obsessivamente para a ponta do arado enquanto era puxado pelas vacas. No fim da linha, virava e desiludia-se porque o raio do sulco de terra aberto era torto como o Governo da República...



Um dia o pai ouviu o dilema e disse ao filho que tinha de levantar a cabeça, olhar para a frente, para o sítio onde queria chegar em vez de olhar para dentro, para o arado e para ele próprio. Tinha de olhar para as vacas que guiadas por ele puxavam o arado, tinha de olhar para a frente para o sulco sair direito e paralelo ao anterior.

Nunca se preocupem muito convosco. É uma receita com que às vezes damos uns belos malhos, piores que aquele que dei há dias e que andei aí de gesso e operações e merdas. Mas vale a pena viver com essa liberdade. Nunca se preocupem muito convosco, com o vosso futuro, com os riscos que correm, por vezes até físicos. Avaliem as coisas pelas causas, não pelo risco. Se pode trazer bem ao mundo, arrisquem. Mas para perceberem isso, não podem olhar para o arado; para perceber o passo seguinte, têm de olhar em frente.

Isso dá-nos uma liberdade incrível para vivermos e fazermos da vida o que tem de ser feito. Porque não nos preocupamos, mas confiamos, temos Fé que a coisa vai dar e "siga"... e seguimos.

No futebol ou nos jogos colectivos, que são uma metáfora tão boa e inteligente da complexidade da sociedade e da vida em equipa, levantem a cabeça quando tiverem a bola nos pés. Analisem a realidade para perceber o que fazer a seguir, para perceber se o melhor caminho e o risco que ele acarreta, perceber se ele vale a pena para trazer um bem maior à equipa.

Sejam por isso generosos, não façam contas com aqueles que amam. A vossas coisas não são vossas. São vossas para administrar ao serviço dos outros e no fim da vossa vida vão dar mesmo o que sobrar a alguém. Não olhem ao que gastam por eles e com eles, os que amam e vos amam, não liguem muito a essa idiotice do eu pago isto e tu pagas aquilo. Entreguem-se, sem serem gastadores e sem serem burros e deixarem que se aproveitem de vocês. Não se ralem com isso, é fácil perceber os aproveitamentos e eles são raros; por isso, entreguem-se.

Dêem-se, acreditem em qualquer coisa, em qualquer causa que achem que "é pá.. é por aqui que o mundo se muda" e vão com tudo.

Por vezes vão ter medo, mas que se lixe o medo. É sinal que são conscientes e de que estão vivos e atentos.


Momentos houve em que teve medo,
mas avançou na mesma..
Não se preocupou muito com o umbigo.


Daqui a uns dias vou para longe de novo e, infelizmente vou dizer-vos que vou ali a um sítio longe e  volto depressa e vocês vão pegar em canetas e brinquedos para me dar e eu levar às crianças de lá, porque é isso que sabem: que costuma haver lá crianças que não têm o que podem e devem ter para ser.

Nem se vão aperceber muito bem de quando vou, mas desta vez... é um sítio desconhecido e longe, numa altura em que os noticiários abrem com tensões no Egipto (hoje descansei a vossa avó que me perguntou se fazia lá escala.. disse que não, e não mesmo), com o contínuo e não surpreendente já fracasso nas negociações e diálogo entre Palestinianos e Israelitas.

Nos jornais da especialidade leio que navios de guerra ingleses e americanos estão a ir para o Golfo Pérsico para "exercícios militares" e, por fim vejo tipos que são governo da sua terra pérsia, que querem financiar organizações de juventude porque querem cativar a juventude do seu país porque têm medo da primavera árabe alastrar para lá e todas estas tensões agravam a coisa. Isto é o que eles dizem, porque não os conheço, não faço ideia se são quem dizem ser, não sei para onde ir a seguir a chegar ao aeroporto de destino, não sei nada.. mas safamo-nos sempre.. até agora foi assim.

Medo.. tenho algum claro. Seria mentir ou insesatez dizer que não, ou por outro lado não o ter. Ele paralisa e deixo de ir? Claro que não... Não aproveitar uma viagem na Air Emirates??? São tolinhos ou quê?! Bebidas inteiramente grátis durante 7 horas 40 minutos?!...

Vejam o potencial da viagem, do encontro. Imaginem que os tipos vão querer financiar o trabalho da ORBIS? Imaginem a quantidade de vidas e de juventude a quem poderiamos canalizar educação, alimentação, saúde.. capacitá-los para eles um dia, convosco, mudarem este mundo?..


O potencial das pessoas..


Não se trata de coragem, não é tanto isso, é mais acreditar que talvez dê... e uma dose de insconsciência. São estes os maiores motores de coragem que existe: acreditar insconscientemente. Quando não tiverem coragem suficiente, sejam inconscientes e lancem-se (cuidado, não aplicar agora esta merda que vos disse porque há e tal parti o vidro não sei quando e esfolei os joelhos não sei aonde porque o padrinho disse que podiamos agir com insconsciência... mauuu.)

Julgo que vale a pena, não?!... Arriscar por cosias grandes?

Ter medo não é mal, é humano, é saudável. Mal é se ele nos paralisa. Não deixem de fazer aquilo que têm de fazer.

Sejam generosos. Não me vejam como exemplo (passo demasiado tempo a surfar e digo a toda a gente que é plano de fisioterapia..).. Sejam generosos.

Não se preocupem muito convosco. Amem com tudo o que têm e vivam com paixão, por causas. Façam pelos outros sem querer saber muito de vocês e, acreditem em mim, vão-se sair bem. Olhem sempre para o horizonte à frente das vacas. Deixem o arado que o sulco sairá bem e no fim, a terra estará arável, boa para semear...

Alegria pura..



PS: Ontem fomos jantar ao Jardim Oudinot, ao Festival do Bacalhau. Quando lá cheguei, o pessoal já estava sentado, os vossos pais e os amigos.. e vocês um bocado calados porque ainda não à vontade... O Gabriel estava sentado, não junto de nenhum dos pais mas de uma colega do pai (este puto é esperto) e estava caladinho, sério como é raro, de olhar fixo. Cheguei lá, nem me notou. Sou assim discreto?... coloquei-me mesmo à frente dos teus olhos Gabriel e quando tu me viste escangalhaste-te a rir à gargalhada só por me veres.

É Amor puro isso puto. Nunca o percas...

Assim como hoje te limpei o rabo e te mudei os lençóis porque mijaste na cama, mudei-te de roupa e emprestei-te uma t-shirt minha que mais te parecia uma túnica da primeira comunhão que aquela cena chegava-te aos pés...

Lembra-te para toda a tua bela da tua vida que mudar fraldas e limpar o rabo a alguém é a maior prova de Amor que pode haver. Lembra-te dessa merda quando eu tiver 90 anos.


PPS: Ontem quando lá cheguei  e me sentei, já tinhas informado toda a gente que ias dormir na casa da praia com o padrinho e até convidaste uma das colegas do teu pai, para ir lá dormir também... Man... tu és um excelente wing man... mas a sério, não exageres na qualidade ok?!


PPPS: Hoje dei-te a alcunha de "birras"... porra, estás quase a convencer-me de que um dia não quero ter filhos... da-sssssse! Era gelados, era carro tele-comandado que querias levar para o raio da praia e sabias que aquilo só anda em piso liso, era abrir cortinas ou fechar, era óculos de sol e calções, era ires para o mar a fim na força de ires surfar, era meteres-te em cima da prancha com ela na areia, quando te expliquei que em cima da prancha só nos metemos quando estamos na água, que os tipos das escolinhas fazem isso nas deles porque as de aprendizagem são de esponja!... manias...
Man... acalma o juízo pá!...

PPPPS: Hoje foi a primeira surfada da tua vida puto... só há três anos neste mundo e... É preciso tê-los. Não os percas.

A determinação aos 3 anos de idade...


... Sejam generosos...



18 de Agosto de 2013, Prado Surf House.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Sobre ser grande e independente




História 1.

"Ainda bem que já falta pouco para eu ser grande para ir viver sozinho e poder surfar à vontade".


Gabe, o pensador.
3 anos


Disseste isto no banco de trás do carro, enquanto ias para a praia, sem ninguém te ter perguntado nada. O que muitos filosofam com mil teorias de independência, fazer o que se quer, estar longe ou perto, inventam mil razões de incompatibilidades para justificarem o passo da vida e fazerem o que querem sem dar espaço ao viver com..., tu resumes isso com o amor incrível de um puto de três anos para quem os problemas não existem porque toda a trata tem solução e por isso mesmo me farto de ouvir da tua boca a expressão "onde é que está o problema?" O pessoal complica tanto, meu Deus! A tua única questão hoje é que para dares dois passos tens de pedir autorização e como tens fama, e proveito, és averiguador de situações externas ao teu espaço de acção vezes demais sem dares conta a ninguém, cerram-te as fileiras.

Deixa-me dizer-te que nem tudo são rosinhas amigo.. só a bíblia que tens de ler para perceberes que há tecidos e cores de roupa e mais não sei quantas merdas que obrigam e correspondem a lavagens específicas e de temperaturas respectivas, e que há o detergente (eu uso o "surf" por razões óbvias) e depois amaciador de roupa e tira-nódoas e mais não sei quantos precisas quase de um doutoramento. Para não falar do raio da diferença entre engomar e passar a ferro ou de um ferro de engomar e de um ferro a vapor.. mas isso ainda ando a tentar perceber... entretanto vai mimando a tua mãe, e acima de tudo, acredita que acenderes as brasas da churrasqueira do terraço, para um jantarinho para os teus amigos e/ou família e/ou gente amada, na tua casa... paga todas as t-shirts estragas em experiências na máquina de lavar roupa... isso, e a seguir à surfada ir directo para o duche quente.. impagável!

Continua assim puto, com esse amor aos teus e a paixão pela vida que já mostras ter... isso e também e o que te sobrar em estilo e esperteza, te faltar em juízo!

PS: eu chamo-te puto, porque tu és puto. Isso não te dá o direito de te armares em fino que já sabe gramática e ires por aí chamar puto no feminino às moças... Chama-lhes miúdas que dá no mesmo.

PPS: a questão do vapor e de engomar, julgo que seja só coisa de água e de goma, mas quando tiver a certeza, aviso. É que isto das camisas é para andar impecável rapaz.


História 2.


Estávamos a falar de carros e motas e descobriste que eu já tinha tido uma mota. Não percebo muito bem de onde te virá a paixão pelas motas, mas quiseste ver a mota e lá fomos a uma dessas molduras electrónicas modernas que agora existem e começámos a passar as fotografias.

Algumas delas eram do casamento dos teus pais e ficaste um bocado aborrecido com o facto de não apareceres em nenhumas e então perguntaste porquê.

- Puqué que eu não apaleço nas fotografias?
- Porque ainda não tinhas nascido pá.
- Estava na barriga da minha mãe?
- Não, ainda estavas nos tomates do teu pai.

Depois partiste-te a rir e foste contar aos teus avós e tive de ouvir sermão à tua conta.
Depois disso vieste pedir-me para eu te explicar o que te tinha dito.

Palerma.



História 3.

Vou surfar. Ordens da fisioterapia. Chega de conversa.