sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Sobre carros [.. ou o valor das coisas].



A vida tem alguns medidores, acontecimentos que se vão ligando a nós e marcam aquele intervalo de anos, aquela fase da vida, o tempo em que estacamos não sei onde ou tínhamos o carro não sei quantos. São muitas as referências que as pessoas usam, e são úteis, dão lógica à nossa história, encadeiam-na e enriquecem-na, fazem com que tudo se ligue, interligue, fie e desfie.

Julgo que para quase toda a gente adulta, os carros que se têm marcam. Porque são testemunhos da viagem que se fez não sei onde, porque são o primeiro objecto com que olhamos para o mundo lá fora, cinema-skope dezasseis por nove, a muito mais que três dimensões.

De vez em quando ouvimos o vosso avô e meu pai a falar do VW carocha, o bolinhas, o primeiro carro que teve na América, depois ouvimos-lo a falar dos troques.. os trucks que tinha para o trabalho dele. 

Uma Ford verde, pick-up... que teve muitos anos e que foi onde eu andava quando era pequeno e sem cinto, porque a pick-up não tinha cintos nessa altura. Imaginem a liberdade desses tempos!

Depois teve uma Pick-Up Chevrolet, branca, mas essa já não a conheci. Foi a última antes de ele voltar para Portugal, já estava cá eu e o vosso pai a viver em casa dos vossos bisavós, na escola.

 A vossa avó e minha mãe e do vosso pai, teve um honda civic, azul. Esse é o primeiro carro que me lembro. Julgo que terá sido o primeiro onde andei.

O Amarelinho, 'where the streets have no name'

Também eu já tenho os meus carismáticos. O primeiro foi Land Rover Discovery, série limitada, que meio mundo conhecia por "Amarelinho", porque era.. amarelo camel trophy. Comprei-o na mesma altura em que resolvi deixar um emprego seguro como arqueólogo numa empresa de consultoria em Lisboa. Passava demasiado tempo frente a um computador e antes e depois deste, demasiado tempo no trânsito. Resolvi que a vida não ia ser aquilo e fiz-me à estrada. Tudo mudou ali. Era um jipe lindo, majestoso, caricato e carismático, era mais conhecido que eu e na escola, assim que eu lá chegava tinha alunos à minha espera só porque viam que o carro do prof estava a chegar. Fui a Marrocos com ele, numa campanha onde esses alunos deram muito de si. Vivi, vivemos aventuras mil, cheguei a sítios com ele onde com ninguém mais chegaria.
Tinha faróis lá em cima e umas escadas atrás por onde podíamos subir para o tejadilho e a vista era sempre fantástica dali!


Aprendi nele a conduzir fora de estrada e ensinei também nele algumas pessoas a conduzir, a ultrapassarem-se. Lembro-me de um passeio todo terreno à Figueira, o tal a Marrocos com ajuda humanitária, onde nas portas iam uns autocolantes de uma ONG que nasceria um ano depois, a ORBIS, com um logo feito de balões, pelo pai da Sara, um capitão dos sete mares.

Bonita metáfora da vida. Fomos juntos a sítios onde ele sem mim não chegaria, onde eu sem ele não chegaria. Dois seres que juntos, se superam e vão mais longe.
Havia Amor entre aquele carro, eu e os que eu amava. Porque se construíram histórias para contar que falam disso, de Amor.


A Maria lembra-se do Amarelinho. Dá-lhe um certo estatuto em relação ao Gabriel mais novo.
É estúpido, eu sei, o puto não tem culpa de não ter nascido antes. Mas há uma certa cumplicidade quando o jipe vem à conversa. A Maria lembra-se dele. O puto não.


Depois do jipe, veio não o todo terreno que vai onde é preciso sem limite, mas o que vai rápido, seguro, fiável, o que cumpre o impossível e me faz estar numa reunião em Lisboa de manhã, e à tarde a dar uma aula em Aveiro.

Foram os anos da Volvo V50. Quando o Gabriel nasceu, fui nesse carro vê-lo a primeira vez, e foi nesse carro que me sentei a seguir e que, como tantos quilómetros em solidão tranquila de oração e contemplação da vida pensei que era tio de um ser humano.

Neste carro foram muitos os quilómetros em pouco tempo, muitas viagens tranquilas para aqui e para ali. Por vezes de rádio desligado, ou de banda sonora bem escolhida que pensei muito em muitas coisas, que tive ideias, muitas para muito de que fui fazendo e implementando nas frentes da minha vida.

Nunca me deixou mal este carro. Era azul escuro, cáspio, lindo como o mar. Aproximou-me dos meus amigos a que a vida levou para mais longe. Quantas vezes fui até ao Porto jantar com o meu 'irmão' Paulo, que foi para lá viver e trabalhar? Sem fazer contas porque o carro consumia pouco e as portagens não existiam? Quantas vezes fui lá, só porque ele precisava de conversar ou de um ryan's amigo. (perguntem-lhe o significado de ryan's).

O Jozias ao lado de um clássico desconhecido, em Castro Laboreiro, na serra do Gerês.

Outra memória do volvo são as surf-trips. a mala enorme, e o espaço grande para as pranchas que encaixavam na perfeição entre os bancos. Uma ida a França de perna partida, conduzido, minimamente tranquilo e confortável para cumprir um dever para com gente amada. Cumprir promessas.

Um carro é um objecto, claro. Mas ganha vida, como as botas com que fomos a África, à Amazónia,  com que fizémos a escavação arqueológica do sítio inóspito no ano xpto. A vida marca-se por etapas, por pessoas, sempre as pessoas, e pelos objectos-lugares por onde elas se movem, juntam, pelo que se tornam juntas, mais do que estarem juntas... o que são e pelo que são... juntas.

O Jozias, assim chamado pela matrícula, foi discreto. Poucos o conheceram e poucos andaram nele. Além da família, um nobel da Paz ando nele, por meio de serras para Aveiro e de Aveiro até ao Porto. Ouvi histórias neles absolutamente espantosas, enquanto conduzia tranquilo e seguro a ouvir esse senhor, nobel da Paz, histórias contadas na primeira pessoa, que jamais foram escritas, com pormenores deliciosos, outros assustadores de como se deu a independência de um país em 2001, de como a Santa Sé na altura lidou com a Igreja local desse país, com a política internacional à mistura e com a coragem dos mais pequenos e mais frágeis que se tornam fortíssimos quando o assunto é proteger os seus...

Este carro é o discreto servidor que me acompanhou corrida fora, milhares de quilómetros, com segurança e eficácia. Lisboa, Aveiro, Porto... palestras e conferências aqui e ali... montou e ajudou a fazer crescer uma ONG este carro silencioso.

Lembro-me dos passeios convosco lá atrás, divertidos sempre que saíam comigo. As vossas cantorias idiotas e infantis gravadas nos telemóveis, o vosso entusiasmo em andar comigo, promessa de diversão fosse lá para onde fosse.

O Jozias sempre em silêncio a testemunhar e a permitir tudo isto.


E foi em silêncio que terminou os seus dias de estrada, a dar a "vida" pelos seus. Paradigma de segurança, deu-se, estragou-se, entregou-se e o habitáculo onde eu conduzia nem um cisco. Eu, nem um ferimento.. só o susto do airbag, o estrondo dos embates. A segurança. A gratidão por estar aqui, por continuar aqui.

Há melhor metáfora deste objecto-carro-lugar-lugares para a vida humana? Dar-mo-nos por inteiro aos nossos? Até a "vida" para os defender?...


Julgo que não, julgo que o melhor 'resumo de uma vida feita do sentimento maravilhado de existir, porque os homens, mesmo os velhos, não deixam de ser crianças no espanto que guardam pela vida', palavras de Lobo Antunes, guardam essa síntese da maravilha de um encontro breve, mas intenso, de que Deus nos guarda através de muitas coincidências e ainda mais, por pormenores.

Uma vida assim, intensa, pelas pessoas, sempre pelas pessoas, é de se viver, dando-a pelo e para os outros.
Vivam-na miúdos, com essa sensação de cumprir o que é urgente, ou emergente, e a causa das pessoas, é sempre a prioridade, seja lá onde fôr, seja lá com que meios fôr. E os vossos meios, são vossos, para vosso serviço aos outros, às pessoas.

As pessoas, sempre as pessoas.

O que virá a seguir?
Vamos ver, com olhos sempre maravilhados.






.referência do texto: [Nuno Lobo Antunes: "Em nome do Pai", pp. 94]


terça-feira, 24 de setembro de 2013

Sobre lerem os clássicos enquanto enquanto são putos. Cultivem a cabeça.




Al-Mithra disse-lhe então: Fala-nos do amor.
E ele virou a cabeça e fitou o povo
e sobre todos se abateu um grande silêncio. 
E, com voz grave, disse...
Quando o amor vos chamar, segui-o, 
mesmo que os seus caminhos sejam íngremes e penosos.
E quando as suas asas vos envolverem, 
entregai-vos a ele, 
ainda que a espada dissimulada nas suas penas vos possa ferir.
E quando ele vos falar, 
crede nele, embora a sua voz possa estilhaçar os vossos sonhos 
como o vento do norte devasta o jardim.
Pois assim como o amor vos coroa, também vos crucifica. 
E, tal como serve para o vosso crescimento, 
também serve para a vossa decadência.
E como ele se ergue até às vossas copas 
e acaricia os vossos mais tenros ramos que esvoaçam ao sol, 
também às vossas raízes ele desce 
e as sacudirá no seu apego à terra.
Quais feixes de trigo, ele vos reúne em si.
Vos amassa para vos pôr a nu.
Vos ciranda para vos libertar do vosso farelo.
Vos mói até à alvura.
Vos amassa até vos tornardes macios.
E, depois, vos entrega ao seu fogo sagrado, 
para vos tornardes pão sagrado 
para o festim sagrado de Deus.
O amor fará todas essas coisas de vós, 
para que possais conhecer os segredos do vosso coração 
e vos tornardes, 
através desse mesmo conhecimento, 
um fragmento do coração da vida.
Mas se, no vosso temor, 
procurardes no amor apenas paz e prazer, 
faríeis melhor se ocultásseis a vossa nudez 
e saísseis do amor, para o mundo sem razão, 
onde rireis, mas não com todo o vosso riso, 
e chorareis, mas não com todas as vossas lágrimas.
O amor dá-se apenas a si mesmo 
e nada recebe se não de si próprio.
O amor não possui nem quer ser possuído.
Porque o amor se basta do amor.
Quando amardes, 
não deveis dizer que está no meu coração, 
mas antes, no coração de Deus.
E não penseis que sois vós quem orienta o rumo do amor, 
pois, se vos achar dignos, 
será o amor que conduzirá o vosso caminho.
O amor não tem outro desejo que não realizar-se a si mesmo. 
Mas se amardes e sentirdes desejos, 
que sejam estes os vossos desejos: 
Dissolver-se e ser-se como um regato 
que desliza e canta à noite a sua melodia.
De tanta ternura conhecer a dor, 
ser ferido pela vossa própria concepção do amor 
e sangrar de boa vontade e com júbilo.
Acordar para o amor com um coração alado 
e dar graças por um outro dia de amor;
e fazer uma pausa à hora do meio dia 
e meditar sobre o êxtase do amor; 
regressar à noite ao lar com gratidão; 
e adormecer com uma oração no coração pelo amado, 
e nos lábios um hino de louvor.


Kahlil Gibran, em "O Profeta" 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

sobre generosidade... e tornarem-se visionários por isso


"Limpar o rabo a alguém é a maior prova de Amor que pode haver. Lembra-te dessa merda quando eu tiver 90 anos."




Hoje vi-vos a competir um bocado um com o outro, aquelas birras estúpidas que os irmãos fazem, normalmente quando pequenos como vocês e depois quando são grandes, nas cenas das partilhas e blá blá blá.
Estavam a reclamar um com o outro sobre quem ia fechar o black-out da casa da praia, aquela de sonho brutal que é o paraíso tornado realidade: praia e montanhas de oportunidades para fazer coisas proibidas como comer na sala (até porque a sala e a cozinha da casa são a mesma coisa em teoria), sujar o chão, jogar futebol em casa... coisas típicas da minha missão de vos estragar, porque para vos educar já têm muita gente.

Na vida meus caros, temos de ter visão ao largo e há discussões que são uma perfeita perda de tempo. A maior parte delas são mesmo por deficiente comunicação, por medo de Amar ou por visão pequena e fechada, pelo facto de, por instinto de protecção e de sobrevivência, a espécie humana, como muitas, olhar muito para o seu umbigo, e ter cuidado com ele por medo de... nem sei bem. Tem alguma coisa de egoísmo, mas não é bem, porque tem alguma coisa também de medo, por oposição ao narcisismo do egoísmo.

Por esta altura, há um padre comboniano, são missionários, na paróquia da nossa aldeia de origem. Missionários são uns tipos simpáticos que andam pelo mundo todo a fazer aquilo em que acreditam, sobretudo a viver aquilo em que acreditam. São tipo padres e freiras mas que curtem bués viajar. E também há deles que não são padres nem freiras e nem viajam.

O Pe Aparício, o comboniano, nota-se que tem origens muito humildes e é um poço de sabedoria. A sabedoria não se mede pelas origens, nem pela inteligência. É impossível aliás de se medir. Todas as pessoas são sábias. A vida ensinou-lhes o que tinha de ensinar e pronto, portanto tratem todas as pessoas como sábias. Com efeito, das pessoas mais sábias que já conheci na vida, não sabiam ler ou escrever.

Continuando, o Pe Aparício, é ainda um poço de alegria, gosta de festa. Imagino Jesus, o herói dele, como um tipo assim.. sempre em pescarias, jantaradas, festas, convívios, casamentos. O Homem ressuscitou e das primeiras coisas que fez foi acender brasas na praia e assar peixe para os amigos. Mal acabou de mudar o mundo para sempre... e põe-se a assar peixe na praia para os amigos. Brutal.

Continuando.. o Pe Aparício contou há dias que quando era pequeno, ia arar a terra para ajudar os pais agricultores. E a grande preocupação dele, quase obstinada, era fazer o risco na terra direito. Olhava obsessivamente para a ponta do arado enquanto era puxado pelas vacas. No fim da linha, virava e desiludia-se porque o raio do sulco de terra aberto era torto como o Governo da República...



Um dia o pai ouviu o dilema e disse ao filho que tinha de levantar a cabeça, olhar para a frente, para o sítio onde queria chegar em vez de olhar para dentro, para o arado e para ele próprio. Tinha de olhar para as vacas que guiadas por ele puxavam o arado, tinha de olhar para a frente para o sulco sair direito e paralelo ao anterior.

Nunca se preocupem muito convosco. É uma receita com que às vezes damos uns belos malhos, piores que aquele que dei há dias e que andei aí de gesso e operações e merdas. Mas vale a pena viver com essa liberdade. Nunca se preocupem muito convosco, com o vosso futuro, com os riscos que correm, por vezes até físicos. Avaliem as coisas pelas causas, não pelo risco. Se pode trazer bem ao mundo, arrisquem. Mas para perceberem isso, não podem olhar para o arado; para perceber o passo seguinte, têm de olhar em frente.

Isso dá-nos uma liberdade incrível para vivermos e fazermos da vida o que tem de ser feito. Porque não nos preocupamos, mas confiamos, temos Fé que a coisa vai dar e "siga"... e seguimos.

No futebol ou nos jogos colectivos, que são uma metáfora tão boa e inteligente da complexidade da sociedade e da vida em equipa, levantem a cabeça quando tiverem a bola nos pés. Analisem a realidade para perceber o que fazer a seguir, para perceber se o melhor caminho e o risco que ele acarreta, perceber se ele vale a pena para trazer um bem maior à equipa.

Sejam por isso generosos, não façam contas com aqueles que amam. A vossas coisas não são vossas. São vossas para administrar ao serviço dos outros e no fim da vossa vida vão dar mesmo o que sobrar a alguém. Não olhem ao que gastam por eles e com eles, os que amam e vos amam, não liguem muito a essa idiotice do eu pago isto e tu pagas aquilo. Entreguem-se, sem serem gastadores e sem serem burros e deixarem que se aproveitem de vocês. Não se ralem com isso, é fácil perceber os aproveitamentos e eles são raros; por isso, entreguem-se.

Dêem-se, acreditem em qualquer coisa, em qualquer causa que achem que "é pá.. é por aqui que o mundo se muda" e vão com tudo.

Por vezes vão ter medo, mas que se lixe o medo. É sinal que são conscientes e de que estão vivos e atentos.


Momentos houve em que teve medo,
mas avançou na mesma..
Não se preocupou muito com o umbigo.


Daqui a uns dias vou para longe de novo e, infelizmente vou dizer-vos que vou ali a um sítio longe e  volto depressa e vocês vão pegar em canetas e brinquedos para me dar e eu levar às crianças de lá, porque é isso que sabem: que costuma haver lá crianças que não têm o que podem e devem ter para ser.

Nem se vão aperceber muito bem de quando vou, mas desta vez... é um sítio desconhecido e longe, numa altura em que os noticiários abrem com tensões no Egipto (hoje descansei a vossa avó que me perguntou se fazia lá escala.. disse que não, e não mesmo), com o contínuo e não surpreendente já fracasso nas negociações e diálogo entre Palestinianos e Israelitas.

Nos jornais da especialidade leio que navios de guerra ingleses e americanos estão a ir para o Golfo Pérsico para "exercícios militares" e, por fim vejo tipos que são governo da sua terra pérsia, que querem financiar organizações de juventude porque querem cativar a juventude do seu país porque têm medo da primavera árabe alastrar para lá e todas estas tensões agravam a coisa. Isto é o que eles dizem, porque não os conheço, não faço ideia se são quem dizem ser, não sei para onde ir a seguir a chegar ao aeroporto de destino, não sei nada.. mas safamo-nos sempre.. até agora foi assim.

Medo.. tenho algum claro. Seria mentir ou insesatez dizer que não, ou por outro lado não o ter. Ele paralisa e deixo de ir? Claro que não... Não aproveitar uma viagem na Air Emirates??? São tolinhos ou quê?! Bebidas inteiramente grátis durante 7 horas 40 minutos?!...

Vejam o potencial da viagem, do encontro. Imaginem que os tipos vão querer financiar o trabalho da ORBIS? Imaginem a quantidade de vidas e de juventude a quem poderiamos canalizar educação, alimentação, saúde.. capacitá-los para eles um dia, convosco, mudarem este mundo?..


O potencial das pessoas..


Não se trata de coragem, não é tanto isso, é mais acreditar que talvez dê... e uma dose de insconsciência. São estes os maiores motores de coragem que existe: acreditar insconscientemente. Quando não tiverem coragem suficiente, sejam inconscientes e lancem-se (cuidado, não aplicar agora esta merda que vos disse porque há e tal parti o vidro não sei quando e esfolei os joelhos não sei aonde porque o padrinho disse que podiamos agir com insconsciência... mauuu.)

Julgo que vale a pena, não?!... Arriscar por cosias grandes?

Ter medo não é mal, é humano, é saudável. Mal é se ele nos paralisa. Não deixem de fazer aquilo que têm de fazer.

Sejam generosos. Não me vejam como exemplo (passo demasiado tempo a surfar e digo a toda a gente que é plano de fisioterapia..).. Sejam generosos.

Não se preocupem muito convosco. Amem com tudo o que têm e vivam com paixão, por causas. Façam pelos outros sem querer saber muito de vocês e, acreditem em mim, vão-se sair bem. Olhem sempre para o horizonte à frente das vacas. Deixem o arado que o sulco sairá bem e no fim, a terra estará arável, boa para semear...

Alegria pura..



PS: Ontem fomos jantar ao Jardim Oudinot, ao Festival do Bacalhau. Quando lá cheguei, o pessoal já estava sentado, os vossos pais e os amigos.. e vocês um bocado calados porque ainda não à vontade... O Gabriel estava sentado, não junto de nenhum dos pais mas de uma colega do pai (este puto é esperto) e estava caladinho, sério como é raro, de olhar fixo. Cheguei lá, nem me notou. Sou assim discreto?... coloquei-me mesmo à frente dos teus olhos Gabriel e quando tu me viste escangalhaste-te a rir à gargalhada só por me veres.

É Amor puro isso puto. Nunca o percas...

Assim como hoje te limpei o rabo e te mudei os lençóis porque mijaste na cama, mudei-te de roupa e emprestei-te uma t-shirt minha que mais te parecia uma túnica da primeira comunhão que aquela cena chegava-te aos pés...

Lembra-te para toda a tua bela da tua vida que mudar fraldas e limpar o rabo a alguém é a maior prova de Amor que pode haver. Lembra-te dessa merda quando eu tiver 90 anos.


PPS: Ontem quando lá cheguei  e me sentei, já tinhas informado toda a gente que ias dormir na casa da praia com o padrinho e até convidaste uma das colegas do teu pai, para ir lá dormir também... Man... tu és um excelente wing man... mas a sério, não exageres na qualidade ok?!


PPPS: Hoje dei-te a alcunha de "birras"... porra, estás quase a convencer-me de que um dia não quero ter filhos... da-sssssse! Era gelados, era carro tele-comandado que querias levar para o raio da praia e sabias que aquilo só anda em piso liso, era abrir cortinas ou fechar, era óculos de sol e calções, era ires para o mar a fim na força de ires surfar, era meteres-te em cima da prancha com ela na areia, quando te expliquei que em cima da prancha só nos metemos quando estamos na água, que os tipos das escolinhas fazem isso nas deles porque as de aprendizagem são de esponja!... manias...
Man... acalma o juízo pá!...

PPPPS: Hoje foi a primeira surfada da tua vida puto... só há três anos neste mundo e... É preciso tê-los. Não os percas.

A determinação aos 3 anos de idade...


... Sejam generosos...



18 de Agosto de 2013, Prado Surf House.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Sobre ser grande e independente




História 1.

"Ainda bem que já falta pouco para eu ser grande para ir viver sozinho e poder surfar à vontade".


Gabe, o pensador.
3 anos


Disseste isto no banco de trás do carro, enquanto ias para a praia, sem ninguém te ter perguntado nada. O que muitos filosofam com mil teorias de independência, fazer o que se quer, estar longe ou perto, inventam mil razões de incompatibilidades para justificarem o passo da vida e fazerem o que querem sem dar espaço ao viver com..., tu resumes isso com o amor incrível de um puto de três anos para quem os problemas não existem porque toda a trata tem solução e por isso mesmo me farto de ouvir da tua boca a expressão "onde é que está o problema?" O pessoal complica tanto, meu Deus! A tua única questão hoje é que para dares dois passos tens de pedir autorização e como tens fama, e proveito, és averiguador de situações externas ao teu espaço de acção vezes demais sem dares conta a ninguém, cerram-te as fileiras.

Deixa-me dizer-te que nem tudo são rosinhas amigo.. só a bíblia que tens de ler para perceberes que há tecidos e cores de roupa e mais não sei quantas merdas que obrigam e correspondem a lavagens específicas e de temperaturas respectivas, e que há o detergente (eu uso o "surf" por razões óbvias) e depois amaciador de roupa e tira-nódoas e mais não sei quantos precisas quase de um doutoramento. Para não falar do raio da diferença entre engomar e passar a ferro ou de um ferro de engomar e de um ferro a vapor.. mas isso ainda ando a tentar perceber... entretanto vai mimando a tua mãe, e acima de tudo, acredita que acenderes as brasas da churrasqueira do terraço, para um jantarinho para os teus amigos e/ou família e/ou gente amada, na tua casa... paga todas as t-shirts estragas em experiências na máquina de lavar roupa... isso, e a seguir à surfada ir directo para o duche quente.. impagável!

Continua assim puto, com esse amor aos teus e a paixão pela vida que já mostras ter... isso e também e o que te sobrar em estilo e esperteza, te faltar em juízo!

PS: eu chamo-te puto, porque tu és puto. Isso não te dá o direito de te armares em fino que já sabe gramática e ires por aí chamar puto no feminino às moças... Chama-lhes miúdas que dá no mesmo.

PPS: a questão do vapor e de engomar, julgo que seja só coisa de água e de goma, mas quando tiver a certeza, aviso. É que isto das camisas é para andar impecável rapaz.


História 2.


Estávamos a falar de carros e motas e descobriste que eu já tinha tido uma mota. Não percebo muito bem de onde te virá a paixão pelas motas, mas quiseste ver a mota e lá fomos a uma dessas molduras electrónicas modernas que agora existem e começámos a passar as fotografias.

Algumas delas eram do casamento dos teus pais e ficaste um bocado aborrecido com o facto de não apareceres em nenhumas e então perguntaste porquê.

- Puqué que eu não apaleço nas fotografias?
- Porque ainda não tinhas nascido pá.
- Estava na barriga da minha mãe?
- Não, ainda estavas nos tomates do teu pai.

Depois partiste-te a rir e foste contar aos teus avós e tive de ouvir sermão à tua conta.
Depois disso vieste pedir-me para eu te explicar o que te tinha dito.

Palerma.



História 3.

Vou surfar. Ordens da fisioterapia. Chega de conversa.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Carta de um Pai à filha pequena, sobre o seu futuro marido.

Esta carta foi escrita pelo pai de uma pequena Maria deste mundo.

É válido para meninas, mas também para rapazes.
O mundo leva-nos a perder imenso tempo com coisas que não são de facto merecedoras, como se tivessemos que constantemente fazer passar ou vender uma ideia ao mundo, convencê-lo...

Fica a carta de um pai, por sinal, de Filadelfia... à sua filha.





Versão traduzida em espanhol e, abaixo, a original:


Querida,
Recientemente, tu madre y yo estábamos buscando algo en Google. A la mitad de escribir la pregunta, Google nos mostró una lista con las búsquedas más populares en el mundo. La búsqueda más popular en la lista era ‘Cómo mantenerlo interesado’.
Me sorprendió. Revisé varios artículos de la incontable cantidad que aparecieron acerca de cómo ser sexy y sexual, cuándo llevarle una cerveza en vez de un sándwich y las formas de hacerlo sentir más inteligente y superior.
Me enfurecí.
Pequeña, esto no es, nunca ha sido y nunca será tu trabajo -’mantenerlo interesado’.
Pequeña, tu única tarea es saber muy dentro de tu alma –en ese lugar inquebrantable que no se transforma por el rechazo, la pérdida o el ego- que tú eres digna de interés. (Si puedes recordar que todos también son dignos de interés, estarás por ganar la batalla de tu vida. Pero esa es otra carta para otro día.)
Si puedes estar segura de que vales en este sentido, serás atractiva en la manera más importante del mundo: atraerás a un chico que sea digno de tu interés y que también querrá pasar su vida invirtiendo todo su interés en ti.
Pequeña, quiero decirte algo acerca del hombre que no necesita que lo mantengan interesado, porque él sabe que tú eres interesante:
No me importa que ponga los codos en la mesa –siempre y cuando él ponga sus ojos en la manera en que tu nariz se frunce cuando sonríes. Y que luego no puede dejar de ver.
No me importa si no puede jugar golf conmigo –siempre y cuando él pueda jugar con los hijos que le des y disfrute todas las formas gloriosas y frustrantes en las que se parecen tanto a ti.
No me importa que no persiga el dinero –siempre y cuando él persiga su corazón y siempre lo lleve de vuelta a ti.
No me importa si es fuerte –siempre y cuando él te dé espacio para ejercitar la fuerza que hay en tu corazón.
No me podría importar menos si vota –siempre y cuando se levante cada mañana y te elija un lugar de honor en tu casa y un lugar para venerarte en su corazón.
No me importa el color de su piel –siempre y cuando él pinte el lienzo de sus vidas con pinceladas de paciencia, sacrificio, vulnerabilidad y ternura.
No me importa si fue educado en esta religión o en otra o en ninguna –siempre y cuando haya sido educado para valorar lo sagrado y para saber que cada momento de la vida y cada momento que pase contigo es algo profundamente sagrado.
Al final pequeña, si te topas con un hombre como ese y parece que él y yo no tenemos nada en común, en realidad tendremos en común lo más importante:
Tú.
Porque al final, pequeña, la única cosa que debes hacer para ‘mantenerlo interesado’ es ser tú misma.
Tu hombre eternamente interesado
Papá




"Dear Cutie-Pie,
Recently, your mother and I were searching for an answer on Google. Halfway through entering the question, Google returned a list of the most popular searches in the world. Perched at the top of the list was “How to keep him interested.”
It startled me. I scanned several of the countless articles about how to be sexy and sexual, when to bring him a beer versus a sandwich, and the ways to make him feel smart and superior.
And I got angry.
Little One, it is not, has never been, and never will be your job to “keep him interested.”
Little One, your only task is to know deeply in your soul—in that unshakeable place that isn’t rattled by rejection and loss and ego—that you are worthy of interest. (If you can remember that everyone else is worthy of interest also, the battle of your life will be mostly won. But that is a letter for another day.)
If you can trust your worth in this way, you will be attractive in the most important sense of the word: you will attract a boy who is both capable of interest and who wants to spend his one life investing all of his interest in you.
Little One, I want to tell you about the boy who doesn’t need to be keptinterested, because he knows you are interesting:
I don’t care if he puts his elbows on the dinner table—as long as he puts his eyes on the way your nose scrunches when you smile. And then can’t stop looking.
I don’t care if he can’t play a bit of golf with me—as long as he can play with the children you give him and revel in all the glorious and frustrating ways they are just like you.
I don’t care if he doesn’t follow his wallet—as long as he follows his heart and it always leads him back to you.
I don’t care if he is strong—as long as he gives you the space to exercise the strength that is in your heart.
I couldn’t care less how he votes—as long as he wakes up every morning and daily elects you to a place of honor in your home and a place of reverence in his heart.
I don’t care about the color of his skin—as long as he paints the canvas of your lives with brushstrokes of patience, and sacrifice, and vulnerability, and tenderness.
I don’t care if he was raised in this religion or that religion or no religion—as long as he was raised to value the sacred and to know every moment of life, and every moment of life with you, is deeply sacred.
In the end, Little One, if you stumble across a man like that and he and I have nothing else in common, we will have the most important thing in common:
You.
Because in the end, Little One, the only thing you should have to do to “keep him interested” is to be you.
Your eternally interested guy,
Daddy

———

This post is, of course, dedicated to my daughter, my Cutie-Pie. But I also want to dedicate it beyond her.
I wrote it for my wife, who has courageously held on to her sense of worth and has always held me accountable to being that kind of “boy.”
I wrote it for every grown woman I have met inside and outside of my therapy office—the women who have never known this voice of a Daddy.
And I wrote it for the generation of boys-becoming-men who need to be reminded of what is really important—my little girl finding a loving, lifelong companion is dependent upon at least one of you figuring this out. I’m praying for you."