A vida tem alguns medidores, acontecimentos que se vão ligando a nós e marcam aquele intervalo de anos, aquela fase da vida, o tempo em que estacamos não sei onde ou tínhamos o carro não sei quantos. São muitas as referências que as pessoas usam, e são úteis, dão lógica à nossa história, encadeiam-na e enriquecem-na, fazem com que tudo se ligue, interligue, fie e desfie.
Julgo que para quase toda a gente adulta, os carros que se têm marcam. Porque são testemunhos da viagem que se fez não sei onde, porque são o primeiro objecto com que olhamos para o mundo lá fora, cinema-skope dezasseis por nove, a muito mais que três dimensões.
De vez em quando ouvimos o vosso avô e meu pai a falar do VW carocha, o bolinhas, o primeiro carro que teve na América, depois ouvimos-lo a falar dos troques.. os trucks que tinha para o trabalho dele.
Uma Ford verde, pick-up... que teve muitos anos e que foi onde eu andava quando era pequeno e sem cinto, porque a pick-up não tinha cintos nessa altura. Imaginem a liberdade desses tempos!
Depois teve uma Pick-Up Chevrolet, branca, mas essa já não a conheci. Foi a última antes de ele voltar para Portugal, já estava cá eu e o vosso pai a viver em casa dos vossos bisavós, na escola.
A vossa avó e minha mãe e do vosso pai, teve um honda civic, azul. Esse é o primeiro carro que me lembro. Julgo que terá sido o primeiro onde andei.
A vossa avó e minha mãe e do vosso pai, teve um honda civic, azul. Esse é o primeiro carro que me lembro. Julgo que terá sido o primeiro onde andei.
Também eu já tenho os meus carismáticos. O primeiro foi Land Rover Discovery, série limitada, que meio mundo conhecia por "Amarelinho", porque era.. amarelo camel trophy. Comprei-o na mesma altura em que resolvi deixar um emprego seguro como arqueólogo numa empresa de consultoria em Lisboa. Passava demasiado tempo frente a um computador e antes e depois deste, demasiado tempo no trânsito. Resolvi que a vida não ia ser aquilo e fiz-me à estrada. Tudo mudou ali. Era um jipe lindo, majestoso, caricato e carismático, era mais conhecido que eu e na escola, assim que eu lá chegava tinha alunos à minha espera só porque viam que o carro do prof estava a chegar. Fui a Marrocos com ele, numa campanha onde esses alunos deram muito de si. Vivi, vivemos aventuras mil, cheguei a sítios com ele onde com ninguém mais chegaria.
Tinha faróis lá em cima e umas escadas atrás por onde podíamos subir para o tejadilho e a vista era sempre fantástica dali!
Tinha faróis lá em cima e umas escadas atrás por onde podíamos subir para o tejadilho e a vista era sempre fantástica dali!
Aprendi nele a conduzir fora de estrada e ensinei também nele algumas pessoas a conduzir, a ultrapassarem-se. Lembro-me de um passeio todo terreno à Figueira, o tal a Marrocos com ajuda humanitária, onde nas portas iam uns autocolantes de uma ONG que nasceria um ano depois, a ORBIS, com um logo feito de balões, pelo pai da Sara, um capitão dos sete mares.
Bonita metáfora da vida. Fomos juntos a sítios onde ele sem mim não chegaria, onde eu sem ele não chegaria. Dois seres que juntos, se superam e vão mais longe.
Havia Amor entre aquele carro, eu e os que eu amava. Porque se construíram histórias para contar que falam disso, de Amor.
A Maria lembra-se do Amarelinho. Dá-lhe um certo estatuto em relação ao Gabriel mais novo.
É estúpido, eu sei, o puto não tem culpa de não ter nascido antes. Mas há uma certa cumplicidade quando o jipe vem à conversa. A Maria lembra-se dele. O puto não.
Depois do jipe, veio não o todo terreno que vai onde é preciso sem limite, mas o que vai rápido, seguro, fiável, o que cumpre o impossível e me faz estar numa reunião em Lisboa de manhã, e à tarde a dar uma aula em Aveiro.
Foram os anos da Volvo V50. Quando o Gabriel nasceu, fui nesse carro vê-lo a primeira vez, e foi nesse carro que me sentei a seguir e que, como tantos quilómetros em solidão tranquila de oração e contemplação da vida pensei que era tio de um ser humano.
Neste carro foram muitos os quilómetros em pouco tempo, muitas viagens tranquilas para aqui e para ali. Por vezes de rádio desligado, ou de banda sonora bem escolhida que pensei muito em muitas coisas, que tive ideias, muitas para muito de que fui fazendo e implementando nas frentes da minha vida.
Neste carro foram muitos os quilómetros em pouco tempo, muitas viagens tranquilas para aqui e para ali. Por vezes de rádio desligado, ou de banda sonora bem escolhida que pensei muito em muitas coisas, que tive ideias, muitas para muito de que fui fazendo e implementando nas frentes da minha vida.
Nunca me deixou mal este carro. Era azul escuro, cáspio, lindo como o mar. Aproximou-me dos meus amigos a que a vida levou para mais longe. Quantas vezes fui até ao Porto jantar com o meu 'irmão' Paulo, que foi para lá viver e trabalhar? Sem fazer contas porque o carro consumia pouco e as portagens não existiam? Quantas vezes fui lá, só porque ele precisava de conversar ou de um ryan's amigo. (perguntem-lhe o significado de ryan's).
Outra memória do volvo são as surf-trips. a mala enorme, e o espaço grande para as pranchas que encaixavam na perfeição entre os bancos. Uma ida a França de perna partida, conduzido, minimamente tranquilo e confortável para cumprir um dever para com gente amada. Cumprir promessas.
Um carro é um objecto, claro. Mas ganha vida, como as botas com que fomos a África, à Amazónia, com que fizémos a escavação arqueológica do sítio inóspito no ano xpto. A vida marca-se por etapas, por pessoas, sempre as pessoas, e pelos objectos-lugares por onde elas se movem, juntam, pelo que se tornam juntas, mais do que estarem juntas... o que são e pelo que são... juntas.
O Jozias, assim chamado pela matrícula, foi discreto. Poucos o conheceram e poucos andaram nele. Além da família, um nobel da Paz ando nele, por meio de serras para Aveiro e de Aveiro até ao Porto. Ouvi histórias neles absolutamente espantosas, enquanto conduzia tranquilo e seguro a ouvir esse senhor, nobel da Paz, histórias contadas na primeira pessoa, que jamais foram escritas, com pormenores deliciosos, outros assustadores de como se deu a independência de um país em 2001, de como a Santa Sé na altura lidou com a Igreja local desse país, com a política internacional à mistura e com a coragem dos mais pequenos e mais frágeis que se tornam fortíssimos quando o assunto é proteger os seus...
Este carro é o discreto servidor que me acompanhou corrida fora, milhares de quilómetros, com segurança e eficácia. Lisboa, Aveiro, Porto... palestras e conferências aqui e ali... montou e ajudou a fazer crescer uma ONG este carro silencioso.
Lembro-me dos passeios convosco lá atrás, divertidos sempre que saíam comigo. As vossas cantorias idiotas e infantis gravadas nos telemóveis, o vosso entusiasmo em andar comigo, promessa de diversão fosse lá para onde fosse.
O Jozias sempre em silêncio a testemunhar e a permitir tudo isto.
E foi em silêncio que terminou os seus dias de estrada, a dar a "vida" pelos seus. Paradigma de segurança, deu-se, estragou-se, entregou-se e o habitáculo onde eu conduzia nem um cisco. Eu, nem um ferimento.. só o susto do airbag, o estrondo dos embates. A segurança. A gratidão por estar aqui, por continuar aqui.
Há melhor metáfora deste objecto-carro-lugar-lugares para a vida humana? Dar-mo-nos por inteiro aos nossos? Até a "vida" para os defender?...
Julgo que não, julgo que o melhor 'resumo de uma vida feita do sentimento maravilhado de existir, porque os homens, mesmo os velhos, não deixam de ser crianças no espanto que guardam pela vida', palavras de Lobo Antunes, guardam essa síntese da maravilha de um encontro breve, mas intenso, de que Deus nos guarda através de muitas coincidências e ainda mais, por pormenores.
Uma vida assim, intensa, pelas pessoas, sempre pelas pessoas, é de se viver, dando-a pelo e para os outros.
Vivam-na miúdos, com essa sensação de cumprir o que é urgente, ou emergente, e a causa das pessoas, é sempre a prioridade, seja lá onde fôr, seja lá com que meios fôr. E os vossos meios, são vossos, para vosso serviço aos outros, às pessoas.
As pessoas, sempre as pessoas.
O que virá a seguir?
Vamos ver, com olhos sempre maravilhados.
O que virá a seguir?
Vamos ver, com olhos sempre maravilhados.
.referência do texto: [Nuno Lobo Antunes: "Em nome do Pai", pp. 94]

