sexta-feira, 18 de abril de 2014

Sobre como gerir a vida nos momentos difíceis - [A Paixão, segundo JC]



Longe vão os dias de festa das bodas de caná, ou os dias serena alegria, de peixe assado na praia ao redor do fogacho com os amigos. Distantes desta noite escura de dureza, vão os dias de conversas longas à beira das noites frescas do lago tiberíades, ou as conversas curtas à beira do poço de samaria, de alegre supresa e charada - “se soubesses quem eu sou Mulher, eras tu que me pedias água” –. Nesta noite, começa um caminho que é feito e coroado com espinhos, longe vai a alegre surpresa de fazer milagres com aquilo que temos onde pessoas que se juntam por uma causa, conseguem fazer que sobrem cestos de pão e peixe depois de 5000 homens, mais mulheres, mais crianças terem comido.

Longe, nesta hora de silêncio – vai um Jesus jovem no rosto, com a certeza de que vai mudar o mundo porque veio dizer que benaventurados são os pobres, não os outros, benaventurados são os que lutam pela justiça, não os outros.
Longe vai o dia em que se aproxima de um palerma que se foi meter em cima de uma árvore para O ver e lhe diz - "Desce daí Zaqueu – quero jantar e ficar em tua casa hoje homem”.
Atrevida esta alegria simples de quem se faz convidado, de quem não se preocupa com onde vai dormir ou o que vai comer ou com quem vai comer – há-de aparecer alguma coisa, e há-de ser em festa. Liberdade isto. Liberdade mesmo.


Que paradoxo e que incoerência difícil de engolir. Tudo começa numa festa, a mais bonita, a do casamento, a celebração de Amor que gera vida.

Tudo desemboca aqui, na morte, no caminho de cruz às costas, numa traição com um beijo, porque desilusão da luta, tudo tem foz no frio e no abandono de quase todos os amigos das horas boas. Que treta. Passar por tanto para isto, para a cruz.


É a vida nos momentos difíceis, longe dos dias de sentido, perto do aparente sem sentido, miúdos. É aqui que vale a fé que infelizmente não vos é explicada em lado nenhum.
Num caminho onde Jesus cai, o tal das assadas à beira do mar. Três vezes. Cai uma, cai duas, cai três vezes, três lentas vezes toca o chão com um beijo encharcado de suor e lágrimas contidas.
Quantas vezes desanimamos quando caímos a primeira. Jesus é condenado, inocente, nem se defende. Para quê dizer alguma coisa? Quantas vezes nos queixamos ao mínimo que nos parece injusto ou mal atribuído?
Jesus segue, imagino-o num silêncio atordoado nesta noite, a pensar no que raio está ali a fazer e como caraças foi ali parar... por outro lado, a sentir tudo e a recordar-se de criança de joelhos esfolados da brincadeira, onde também sentida tudo, com a mãe a ralhar-lhe aflita para que tenha cuidado que as brincadeiras podem dar mau resultado.

Desta vez é Ele que consola a mesma mãe, aflita.
A serenidade que é preciso e a lucidez para nos momentos difíceis sobrevoarmos e sabermos o sentido maior. Jesus é feliz, até aqui, no meio deste caminho a que chamais de via sacra. Consola durante a sua travessia as mulheres de Jerusalém, deixa-se secar e limpar pelo lenço de Verónica, deixa-se ajudar, como o fazia pelo caminhos da Galileia, junto aos poços do deserto, junto ao lago das pescarias – lança para esse lado Pedro. Jesus deixa-se ajudar. A dor no Amor revelada por José, um amigo de Arimateia, talvez algum dos que Ele cativou de sorriso no rosto e palavras leves de ressurreição que lhe carrega a cruz no meio da confusão de gente e de factos que incriminam um criminoso, que o era, como hoje, desalinhado do Poder.

Cristo lava os pés aos discípulos - Rembrandt


Despojado de tudo, até da roupa que trazia, fica a ser menos que um refugiado, o Deus feito homem, submete-se a tudo. Morre na extrema dor, a mais baixa -  a cruz dos cabrões. Nasceu numa manjedoura de pobre, morre numa cruz de crime.

Hoje perguntaste-me o que era a via sacra, Gabriel. Respondi-te que era o dia em que lixaram o Cristo bem lixado. Mais tarde hás-de perceber o que é a via sacra. Não é caminho de dores - é caminho de heróis - como tu, de gente que acredita que há uma coisa chamada Amor, que por uma vez que vale por todas, venceu o Poder.

Foi a vez do mestre, que se juntava com os amigos na praia a assar peixe fresco na areia e a comer à volta da fogueira, depois talvez de uma bela surfada ou pescaria. O mestre que dizia o que tinha de dizer e vivia por isso e por isso o calaram, mas por isso ele reviveu, sem provas que sim ou que não. Não te sei explicar a Fé de outra maneira que um espinho a rasgar-nos a pele porque acreditamos naquilo em que acreditamos.

Só assim percebo porque é que o Mestre percorreu todo o caminho, todos os momentos difíceis, os possíveis e os impossíveis de imaginar, tudo para nos dizer que é assim que se faz, que é assim que se vive, porque mesmo na morte, estaremos vivos. Estamos cá para isso, para lutar pela justiça do Amor e fazê-lo com certeza definitiva, até ao fim, mesmo que nos custe a vida. E é nesse espírito, de que longe vão os dias de dor já.. Desde aí.
As bodas de Caná são para sempre.







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