terça-feira, 24 de setembro de 2013

Sobre lerem os clássicos enquanto enquanto são putos. Cultivem a cabeça.




Al-Mithra disse-lhe então: Fala-nos do amor.
E ele virou a cabeça e fitou o povo
e sobre todos se abateu um grande silêncio. 
E, com voz grave, disse...
Quando o amor vos chamar, segui-o, 
mesmo que os seus caminhos sejam íngremes e penosos.
E quando as suas asas vos envolverem, 
entregai-vos a ele, 
ainda que a espada dissimulada nas suas penas vos possa ferir.
E quando ele vos falar, 
crede nele, embora a sua voz possa estilhaçar os vossos sonhos 
como o vento do norte devasta o jardim.
Pois assim como o amor vos coroa, também vos crucifica. 
E, tal como serve para o vosso crescimento, 
também serve para a vossa decadência.
E como ele se ergue até às vossas copas 
e acaricia os vossos mais tenros ramos que esvoaçam ao sol, 
também às vossas raízes ele desce 
e as sacudirá no seu apego à terra.
Quais feixes de trigo, ele vos reúne em si.
Vos amassa para vos pôr a nu.
Vos ciranda para vos libertar do vosso farelo.
Vos mói até à alvura.
Vos amassa até vos tornardes macios.
E, depois, vos entrega ao seu fogo sagrado, 
para vos tornardes pão sagrado 
para o festim sagrado de Deus.
O amor fará todas essas coisas de vós, 
para que possais conhecer os segredos do vosso coração 
e vos tornardes, 
através desse mesmo conhecimento, 
um fragmento do coração da vida.
Mas se, no vosso temor, 
procurardes no amor apenas paz e prazer, 
faríeis melhor se ocultásseis a vossa nudez 
e saísseis do amor, para o mundo sem razão, 
onde rireis, mas não com todo o vosso riso, 
e chorareis, mas não com todas as vossas lágrimas.
O amor dá-se apenas a si mesmo 
e nada recebe se não de si próprio.
O amor não possui nem quer ser possuído.
Porque o amor se basta do amor.
Quando amardes, 
não deveis dizer que está no meu coração, 
mas antes, no coração de Deus.
E não penseis que sois vós quem orienta o rumo do amor, 
pois, se vos achar dignos, 
será o amor que conduzirá o vosso caminho.
O amor não tem outro desejo que não realizar-se a si mesmo. 
Mas se amardes e sentirdes desejos, 
que sejam estes os vossos desejos: 
Dissolver-se e ser-se como um regato 
que desliza e canta à noite a sua melodia.
De tanta ternura conhecer a dor, 
ser ferido pela vossa própria concepção do amor 
e sangrar de boa vontade e com júbilo.
Acordar para o amor com um coração alado 
e dar graças por um outro dia de amor;
e fazer uma pausa à hora do meio dia 
e meditar sobre o êxtase do amor; 
regressar à noite ao lar com gratidão; 
e adormecer com uma oração no coração pelo amado, 
e nos lábios um hino de louvor.


Kahlil Gibran, em "O Profeta" 

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