terça-feira, 20 de agosto de 2013

sobre generosidade... e tornarem-se visionários por isso


"Limpar o rabo a alguém é a maior prova de Amor que pode haver. Lembra-te dessa merda quando eu tiver 90 anos."




Hoje vi-vos a competir um bocado um com o outro, aquelas birras estúpidas que os irmãos fazem, normalmente quando pequenos como vocês e depois quando são grandes, nas cenas das partilhas e blá blá blá.
Estavam a reclamar um com o outro sobre quem ia fechar o black-out da casa da praia, aquela de sonho brutal que é o paraíso tornado realidade: praia e montanhas de oportunidades para fazer coisas proibidas como comer na sala (até porque a sala e a cozinha da casa são a mesma coisa em teoria), sujar o chão, jogar futebol em casa... coisas típicas da minha missão de vos estragar, porque para vos educar já têm muita gente.

Na vida meus caros, temos de ter visão ao largo e há discussões que são uma perfeita perda de tempo. A maior parte delas são mesmo por deficiente comunicação, por medo de Amar ou por visão pequena e fechada, pelo facto de, por instinto de protecção e de sobrevivência, a espécie humana, como muitas, olhar muito para o seu umbigo, e ter cuidado com ele por medo de... nem sei bem. Tem alguma coisa de egoísmo, mas não é bem, porque tem alguma coisa também de medo, por oposição ao narcisismo do egoísmo.

Por esta altura, há um padre comboniano, são missionários, na paróquia da nossa aldeia de origem. Missionários são uns tipos simpáticos que andam pelo mundo todo a fazer aquilo em que acreditam, sobretudo a viver aquilo em que acreditam. São tipo padres e freiras mas que curtem bués viajar. E também há deles que não são padres nem freiras e nem viajam.

O Pe Aparício, o comboniano, nota-se que tem origens muito humildes e é um poço de sabedoria. A sabedoria não se mede pelas origens, nem pela inteligência. É impossível aliás de se medir. Todas as pessoas são sábias. A vida ensinou-lhes o que tinha de ensinar e pronto, portanto tratem todas as pessoas como sábias. Com efeito, das pessoas mais sábias que já conheci na vida, não sabiam ler ou escrever.

Continuando, o Pe Aparício, é ainda um poço de alegria, gosta de festa. Imagino Jesus, o herói dele, como um tipo assim.. sempre em pescarias, jantaradas, festas, convívios, casamentos. O Homem ressuscitou e das primeiras coisas que fez foi acender brasas na praia e assar peixe para os amigos. Mal acabou de mudar o mundo para sempre... e põe-se a assar peixe na praia para os amigos. Brutal.

Continuando.. o Pe Aparício contou há dias que quando era pequeno, ia arar a terra para ajudar os pais agricultores. E a grande preocupação dele, quase obstinada, era fazer o risco na terra direito. Olhava obsessivamente para a ponta do arado enquanto era puxado pelas vacas. No fim da linha, virava e desiludia-se porque o raio do sulco de terra aberto era torto como o Governo da República...



Um dia o pai ouviu o dilema e disse ao filho que tinha de levantar a cabeça, olhar para a frente, para o sítio onde queria chegar em vez de olhar para dentro, para o arado e para ele próprio. Tinha de olhar para as vacas que guiadas por ele puxavam o arado, tinha de olhar para a frente para o sulco sair direito e paralelo ao anterior.

Nunca se preocupem muito convosco. É uma receita com que às vezes damos uns belos malhos, piores que aquele que dei há dias e que andei aí de gesso e operações e merdas. Mas vale a pena viver com essa liberdade. Nunca se preocupem muito convosco, com o vosso futuro, com os riscos que correm, por vezes até físicos. Avaliem as coisas pelas causas, não pelo risco. Se pode trazer bem ao mundo, arrisquem. Mas para perceberem isso, não podem olhar para o arado; para perceber o passo seguinte, têm de olhar em frente.

Isso dá-nos uma liberdade incrível para vivermos e fazermos da vida o que tem de ser feito. Porque não nos preocupamos, mas confiamos, temos Fé que a coisa vai dar e "siga"... e seguimos.

No futebol ou nos jogos colectivos, que são uma metáfora tão boa e inteligente da complexidade da sociedade e da vida em equipa, levantem a cabeça quando tiverem a bola nos pés. Analisem a realidade para perceber o que fazer a seguir, para perceber se o melhor caminho e o risco que ele acarreta, perceber se ele vale a pena para trazer um bem maior à equipa.

Sejam por isso generosos, não façam contas com aqueles que amam. A vossas coisas não são vossas. São vossas para administrar ao serviço dos outros e no fim da vossa vida vão dar mesmo o que sobrar a alguém. Não olhem ao que gastam por eles e com eles, os que amam e vos amam, não liguem muito a essa idiotice do eu pago isto e tu pagas aquilo. Entreguem-se, sem serem gastadores e sem serem burros e deixarem que se aproveitem de vocês. Não se ralem com isso, é fácil perceber os aproveitamentos e eles são raros; por isso, entreguem-se.

Dêem-se, acreditem em qualquer coisa, em qualquer causa que achem que "é pá.. é por aqui que o mundo se muda" e vão com tudo.

Por vezes vão ter medo, mas que se lixe o medo. É sinal que são conscientes e de que estão vivos e atentos.


Momentos houve em que teve medo,
mas avançou na mesma..
Não se preocupou muito com o umbigo.


Daqui a uns dias vou para longe de novo e, infelizmente vou dizer-vos que vou ali a um sítio longe e  volto depressa e vocês vão pegar em canetas e brinquedos para me dar e eu levar às crianças de lá, porque é isso que sabem: que costuma haver lá crianças que não têm o que podem e devem ter para ser.

Nem se vão aperceber muito bem de quando vou, mas desta vez... é um sítio desconhecido e longe, numa altura em que os noticiários abrem com tensões no Egipto (hoje descansei a vossa avó que me perguntou se fazia lá escala.. disse que não, e não mesmo), com o contínuo e não surpreendente já fracasso nas negociações e diálogo entre Palestinianos e Israelitas.

Nos jornais da especialidade leio que navios de guerra ingleses e americanos estão a ir para o Golfo Pérsico para "exercícios militares" e, por fim vejo tipos que são governo da sua terra pérsia, que querem financiar organizações de juventude porque querem cativar a juventude do seu país porque têm medo da primavera árabe alastrar para lá e todas estas tensões agravam a coisa. Isto é o que eles dizem, porque não os conheço, não faço ideia se são quem dizem ser, não sei para onde ir a seguir a chegar ao aeroporto de destino, não sei nada.. mas safamo-nos sempre.. até agora foi assim.

Medo.. tenho algum claro. Seria mentir ou insesatez dizer que não, ou por outro lado não o ter. Ele paralisa e deixo de ir? Claro que não... Não aproveitar uma viagem na Air Emirates??? São tolinhos ou quê?! Bebidas inteiramente grátis durante 7 horas 40 minutos?!...

Vejam o potencial da viagem, do encontro. Imaginem que os tipos vão querer financiar o trabalho da ORBIS? Imaginem a quantidade de vidas e de juventude a quem poderiamos canalizar educação, alimentação, saúde.. capacitá-los para eles um dia, convosco, mudarem este mundo?..


O potencial das pessoas..


Não se trata de coragem, não é tanto isso, é mais acreditar que talvez dê... e uma dose de insconsciência. São estes os maiores motores de coragem que existe: acreditar insconscientemente. Quando não tiverem coragem suficiente, sejam inconscientes e lancem-se (cuidado, não aplicar agora esta merda que vos disse porque há e tal parti o vidro não sei quando e esfolei os joelhos não sei aonde porque o padrinho disse que podiamos agir com insconsciência... mauuu.)

Julgo que vale a pena, não?!... Arriscar por cosias grandes?

Ter medo não é mal, é humano, é saudável. Mal é se ele nos paralisa. Não deixem de fazer aquilo que têm de fazer.

Sejam generosos. Não me vejam como exemplo (passo demasiado tempo a surfar e digo a toda a gente que é plano de fisioterapia..).. Sejam generosos.

Não se preocupem muito convosco. Amem com tudo o que têm e vivam com paixão, por causas. Façam pelos outros sem querer saber muito de vocês e, acreditem em mim, vão-se sair bem. Olhem sempre para o horizonte à frente das vacas. Deixem o arado que o sulco sairá bem e no fim, a terra estará arável, boa para semear...

Alegria pura..



PS: Ontem fomos jantar ao Jardim Oudinot, ao Festival do Bacalhau. Quando lá cheguei, o pessoal já estava sentado, os vossos pais e os amigos.. e vocês um bocado calados porque ainda não à vontade... O Gabriel estava sentado, não junto de nenhum dos pais mas de uma colega do pai (este puto é esperto) e estava caladinho, sério como é raro, de olhar fixo. Cheguei lá, nem me notou. Sou assim discreto?... coloquei-me mesmo à frente dos teus olhos Gabriel e quando tu me viste escangalhaste-te a rir à gargalhada só por me veres.

É Amor puro isso puto. Nunca o percas...

Assim como hoje te limpei o rabo e te mudei os lençóis porque mijaste na cama, mudei-te de roupa e emprestei-te uma t-shirt minha que mais te parecia uma túnica da primeira comunhão que aquela cena chegava-te aos pés...

Lembra-te para toda a tua bela da tua vida que mudar fraldas e limpar o rabo a alguém é a maior prova de Amor que pode haver. Lembra-te dessa merda quando eu tiver 90 anos.


PPS: Ontem quando lá cheguei  e me sentei, já tinhas informado toda a gente que ias dormir na casa da praia com o padrinho e até convidaste uma das colegas do teu pai, para ir lá dormir também... Man... tu és um excelente wing man... mas a sério, não exageres na qualidade ok?!


PPPS: Hoje dei-te a alcunha de "birras"... porra, estás quase a convencer-me de que um dia não quero ter filhos... da-sssssse! Era gelados, era carro tele-comandado que querias levar para o raio da praia e sabias que aquilo só anda em piso liso, era abrir cortinas ou fechar, era óculos de sol e calções, era ires para o mar a fim na força de ires surfar, era meteres-te em cima da prancha com ela na areia, quando te expliquei que em cima da prancha só nos metemos quando estamos na água, que os tipos das escolinhas fazem isso nas deles porque as de aprendizagem são de esponja!... manias...
Man... acalma o juízo pá!...

PPPPS: Hoje foi a primeira surfada da tua vida puto... só há três anos neste mundo e... É preciso tê-los. Não os percas.

A determinação aos 3 anos de idade...


... Sejam generosos...



18 de Agosto de 2013, Prado Surf House.

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